Poster Literário Poetas do Século XX Para avançar ou recuar prima as teclas das setas do seu computador Pedra Filosofal António Gedeão Heitor -José Nadir –

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Poster Literário
Poetas do Século XX
Para avançar ou recuar prima as
teclas das setas do seu computador
Pedra Filosofal
António Gedeão
Heitor -José Nadir – Rafaela - Vera
Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
Introdução
No poema, o sujeito de enunciação
versa sobre a importância do sonho,
descrevendo dois lados que se
completam, por um lado, o mundo
empírico e racional e, por outro lado, o
sonho. Sem os dois, é impossível
obtermos a “Pedra filosofal”
.
O poema está dividido em duas partes,
uma, em que o eu relata ao «Eles» o
quanto o sonho é inerente à vida, e
uma última, como conclusão, que
recupera a ideia geral do poema.
«Pedra Filosofal»
A pedra filosofal era o principal
objectivo dos alquimistas. Com ela o
alquimista poderia transmutar qualquer
metal inferior em ouro, como também
obter o Elixir da Longa Vida, que
permitiria prolongar a vida
indefinidamente.
O trabalho relacionado com a pedra
filosofal era chamado pelos alquimistas
de "A Grande Obra".
Análises formal e fónica
• O poema é irregular: 4 estrofes com
12 versos, uma sextilha, 24 versos e
sextilha.
• O verso «Eles não sabem que o
sonho», no início das três estrofes,
funciona como um refrão, é o
pressuposto do poema.
• A rima é maioritariamente
emparelhada em todas as estrofes, é
ainda perfeita e rica.
•A métrica é irregular, embora
predomine a redondilha maior.
Análises ideológica e
estilística
Na 1ª estrofe, o eu defende que «o sonho/é
uma constante da vida/tão concreta e definida
como outra coisa qualquer». Ao sonho, uma
realidade normalmente abstracta e difusa, são
dadas qualidades da permanência (constante),
e da substância (concreta e definida). A
comparação vaga «como outra coisa qualquer»
é clarificada na enumeração de comparações,
anunciadas pela anáfora «como», que anuncia
nomes concretos “pedra, ribeiro, pinheiros,
aves”, e ainda, na 2ª estrofe «é vinho, é
espuma, é fermento». O elemento natural é
essencial à vida, tal o sonho.
Na terceira estrofe, o eu argumenta aos que
não acreditam no sonho, “Eles”, a razão pela
qual o sonho, embora abstracto, é o “comando
da vida”, utilizando sempre realidades
concretas.
Argumenta, assim, com uma enumeração de
várias criações artísticas, ao longo dos tempos,
como a pintura, “é tela, …”, a arquitectura,
“arco em ogiva…”, e outras até às tecnologias
actuais, “foguetão”. O eu demonstra, assim,
que o sonho é o alimento do homem e está
presente em todos os tempos. O uso do
Presente do descreve esta realidade sempre
actual.
A quarta estrofe conclui que o sonho é como
um caminho para chegarmos mais longe. O
mundo evolui, porque um dia alguém sonhou
mais alto. A metáfora da bola apela à criança
que há dentro de nós que nunca morra, pois é
com a imaginação, a esperança, a curiosidade
que se torna possível sonhar e, por isso,
avançar.
Marcas de Gedeão
“Uma das marcas da capacidade
inovadora e do sentido da
modernidade de António Gedeão,
consiste em ter transposto para o
domínio da poesia a cultura
cientifica, plasmando-a nas formas
de expressão tradicionais
(populares e «clássicas»),
humanizando-a e conseguindo um
síntese notável entre sentido do
rigor da ciência e harmonização
poética.”
Conclusão
Neste poema, o sujeito de
enunciação demonstra a
necessidade do sonho, aos homens
demasiado racionais.
Coloca-se assim a questão da
natureza humana, um tema actual
porque os desejos só se realizam
quando o homem sonha, tema já
presente em Fernando pessoa no
poema “Infante” onde o poeta
escreve “Deus quer, o homem
sonha, a obra nasce”.
Referências
Sena, Jorge de., António Gedeão,
Obra Completa, ed. Relógio D’
Água, p. 65.
Convocação
Ana; Ângela; Bruno; João Miguel; Tânia
Analises ideológica e
estilística
Convocação
“Vem ter comigo.Noite escura.
Como uma sepultura.
Tenho estrelas aos pés para te dar.
De mim te vai nascer o luar.
Saudade, vem,aperta-me a garganta
Com tua garra de carícias. Canta
A boca aberta ao ar que já lhe falha,
Mas que enchem versos que, mau grado,
espalha.
Introdução
A composição poética “ convocação”,
Da
autoria de José Régio,
foi extraído livro
“Cântico suspenso”.
O sujeito lírico convoca o sofrimento
que já conhece
para ser de novo “virgem”,
para renascer como um novo “eu”.
O poema aponta para duas convocações.
Vem, Solidão, fazer-me companhia.
Remove do teu peito a laje fria.
Tenho vidas a mais, que não consigo
Viver se não contigo.
Tristeza e Humilhação, que procriais rancores,
Vinde, cobrir-vos-ei de flores.
Por ínvios descampados
Chego aos jardins suspensos enterrados.
Traições.Tédio.Amargor.Martírios.Agonias.
Enchei as minhas mãos vazias.
Liberais vo-las trago a receber-vos:
Tiranos que me fostes, sois-me servos.
Vem.Desespero! Enche-me o espaço
Despoja-me do nada que me abraço.
Quero embalar-te ao colo da Esperança
Que nada pede-tudo alcança.
Depois vem tu, quando te apraza.
De ainda tremo ao presentir-te a Asa
Já, dada a volta, vou voltando á Origem.
Vem buscar o teu noivo outra vez virgem.”
Analises formal
e fónica
A composição poética é regular,
pois é formada por sete quadras.
A musicalidade do poema é conseguida
através de várias formas.
A rima é consoante emparelhada.
A métrica é irregular, no entanto,
predominam os versos decassílabos.
Uma convocação representa o acto de convocar, chamar
para reunir, é um apelo à união, o eu neste caso convoca
tudo aquilo que o pode humanizar, para o purificar.
Nesta obra, bem como na maioria das suas obras, José
Régio, imprime ao poema um tom dramático, teatral,
utilizando uma linguagem pessoal e densa revelando a
potente vibração do seu espírito, é através dessa língua
irreprimível, agitada, grandiosa, redonda e soberana que
nós chegamos a sentir todo o drama ou dramatização
mental do poema.
A primeira convocação começa na 1ª estrofe e termina na
6ª, sendo a última quadra a segunda convocação, estando
a segunda dependente da primeira, uma vez que, para
regressar à origem, tem que ultrapassar todo o sofrimento,
convocando várias entidades.
Sucedem-se várias apóstrofes onde se faz a “convocação”
através de imperativos contínuos “vem...vinde...fazei-me
companhia...dai-me motivos para lutar....para ter
esperança”
Na primeira convocação, o sujeito poético invoca a
Morte, a Saudade, a Solidão, a Tristeza, a Humilhação, as
Traições, o Tédio, o Amargor, os Martírios, as Agonias e
o Desespero (aparecem no texto com letra maiúscula pois
são as entidades invocadas pelo sujeito poético) para que
o purifiquem, através da humanização conseguida com o
sofrimento libertador.
Ajudam á purificação (“Enchei as minhas mãos
vazias”...”Quero embalar-te no colo da Esperança”).
Nesta primeira convocação o sujeito poético acaba por se
purificar ao longo da sua “vida”, ultrapassando os
obstáculos a ele colocados. Humaniza-se e deseja poder
recomeçar de uma nova forma, isto é, como um novo eu.
No início da segunda convocação o eu poético afirma
que ainda treme quando sente o sofrimento (pois ainda
não conseguiu a purificação), mas que, quando
ultrapassado, pode regressar à origem como um novo
“eu” (“Já dada a volta, vou voltando à origem”). Apesar
de cada um ter a sua “cruz”, pode ultrapassar todo o
sofrimento, podendo recomeçar “virgem” (“Vem buscar o
teu noivo outra vez virgem”).
Acaba, assim, humanizado, purificado pelo sofrimento,
regressado à origem, renascido.
Marcas do autor
José Régio utiliza uma
linguagem pessoal e densa.
Nele a linguagem poética revela-se
uma potente vibração do seu espírito,
É por essa língua, irreprimível,
agitada, radiosa, redonda e soberana
que nós chegamos a sentir todo o drama ou
dramatização mental do poeta.
Neste poema (“convocação”), José Régio
explora a angustia humana apelando à
transformação do ser, sua purificação.
Conclusão
Neste poema, o sujeito da enunciação convoca
várias entidades
ligadas ao sofrimento para conseguir
purificação, uma espécie de conhecimento interior,
é uma tentativa
de ascensão, dentro de si,
a um absoluto
(positivo ou negativo, na medida em que o absoluto
do mal pode também ser uma via).
Este tema prende-se com as preocupações
humanísticas
do autor, cuja poesia é pessoal e viva,
uma vez que a arte de José Régio é a
expressão do Humano, as preocupações metafísicas
e psicológicas do Homem.
Assim sendo, no poema “Convocação”, o sujeito
poético explora a angústia humana apelando
à transformação do ser, à sua purificação.
Referências
Historia da língua portuguesa do sec. XII-XVIII
Trabalho realizado por:
Rui Augusto
Elsa Marina
Marta Freitas
João Manuel
Dinis Falcão, 10º E
“ Poema à Mãe “ de Eugénio de Andrade.
Introdução
Poema à mãe
No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe!
Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos!
Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais!
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.
Poema, em verso livre,
dedicado à mãe
O desfasamento temporal
entre o tempo da infância e a
idade adulta, o 1º marcado
por um amor feliz entre a
criança e a mãe e o 2º por um
amor infeliz entre o adulto e a
mãe
Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura!
Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos...
Mas tu esqueceste muita coisa!
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!
Olha - queres ouvir-me? -,
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz:
"Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal..."
Mas - tu sabes! - a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu...
Boa noite. Eu vou com as aves!
Marcas de Eugénio
de Andrade
Título: Dedicatória à mãe
Ruptura entre a infância e a
idade adulta.
1º momento: amor feliz
Relação mãe / eu criança.
Acção realizada no passado, «perdi».
Inocência do eu criança e
necessidade de protecção verificado
nas metáforas “rosas”, “retrato da
moldura”
Liberdade inocente e
primitiva.
Metáforas das partes do
corpo tocadas na relação
amorosa.
Conclusão
Ruptura
“meu coração ficou
enorme, mãe!”
Análises formal e
fónica
2º momento: amor infeliz
Relação eu adulto / mãe.
Poema longo constituído por
: 3 dísticos, 7 tercetos, 2
quintilhas e 1 monóstico.
Irregularidade métrica com
predominância do verso curto.
Rima interna em /i/ na 1ª
quadra, rima toante em –oras/
ora.
Repetição de vocábulos:
“mas”,”tudo”.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas...
Análises ideológica e
estilística
Musicalidade
Acção realizada no presente do
indicativo, «traí».
Necessidade de liberdade, de outro
amor , ideia presente na metáfora das
aves “Boa noite. Eu vou com as aves”.
Em suma:
Eu / mãe
1ª parte
Passado
 Pureza
Amor
exclusivo
Eterna
criança
2ª parte
Ruptura Presente
Necessidade:
De partir
Amar outra
pessoa
Da mãe aceitar
que ele cresceu
Na primeira parte, o filho tenta
demonstrar à mãe que
cresceu e que, agora, se vai
embora para amar. Mas irá
sempre continuar a amar a
mãe como a amava enquanto
criança, pois não foi o amor
da mãe que diminuiu para dar
espaço ao amor de outra
pessoa mas pelo contrário, o
que cresceu foi o seu
coração, tal como ele. O
crescimento dele implica
ruptura da relação.
As mães tratam os seus filhos
como crianças, mesmo
quando já são adultos, e
transmite um sentimento de
culpa por parte do filho por
magoar o amor da sua mãe, o
que é encarado como uma
traição.
Referências
ANDRADE, Eugénio, Os
Amantes sem dinheiro,
Poema á mãe.
Manual 10º ano
Amor feliz
Amor
infeliz
Escola Secundária Carlos Amarante
Eu
Florbela Espanca
Introdução
EU
• Poema representativo da obra
da autora
Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do sonho, e desta sorte
Sou a crucificada… a dolorida.
Sombra de névoa, ténue e esvaecida
E que o destino amargo, triste e forte
Impele brutalmente, para a morte!
Ama de luto, sempre incompreendida!...
Sou aquela que passa e ninguém vê…
Sou a que chamam triste sem o ser…
Sou a que chora sem saber porquê…
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo para me ver,
E que nunca me encontrou!
• Divide-se em duas partes
opostas: a relação do eu com o
mundo e relação do eu com o
outro/o destino. Na primeira parte,
situada nas três primeiras
estrofes, há uma referência ao
desamparo do sujeito poético, na
segunda, última estrofe (chave
d’ouro), menciona-se a razão do
seu desassossego.
•Poesia intimista e egocêntrica
Análises formal e
fónica
• 2 quadras e 2 tercetos = soneto
Mágoas (1919)
• a rima é rica e pobre e é toda
consoante “Eu sou a que no mundo
anda perdida (…) sou a crucificada…a
dolorida”
• O esquema rimático na 1ª e 2ª
estrofes é alternadamente
emparelhado e interpolado (abba;
abba) e nos 2 últimos tercetos é
exclusivamente interpolado (cdc; ede).
• Os versos são todos eles
decassilábicos heróicos (à maneira
clássica).
Análises ideológica e
estilística
Na primeira quadra, o eu poético sente-se
perdido, desorientado , é “a crucificada”, um
sintoma do seu egocentrismo (tal como o título),
pois compara-se metaforicamente à figura de
Cristo, um mártir, ideia muito recorrente na
literatura romântica.
Nesta fase, o eu define-se a si própria,
recorrendo à anáfora, “Eu sou”.
Esta ideia da vítima é retomada na segunda
quadra, onde predomina o sentimento de
incompreensão por parte dos outros e injustiça e
impotência face ao destino, referido com a tripla
adjectivação “ (…) amargo, triste e forte”.
Os dois últimos tercetos são o culminar das
duas primeiras quadras.
Todavia, no primeiro terceto há uma conclusão
do que realmente o eu sente, sem metáforas, é
uma enumeração do porquê da sensação de
incompreensão.
No segundo terceto, a frustração é o sentimento
principal, pois o uso do conector “talvez” marca
a dúvida que reina no interior do eu poético.
Acredita que todas as pessoas quando nascem
já têm uma alma gémea predestinada, sem a
qual se sentem incompletos, uma sensação de
frustração.
Além disso, há ainda uma relação de oposição
do Eu em relação ao Mundo que é explicada na
relação do EU com “alguém”, pois “não existe”
se não é amada.
Marcas de Florbela
Espanca
• Revelação do seu estado de
espírito;
 Musicalidade na sua poesia: uso
do soneto;
• Pontuação expressiva
(exclamação e reticências como
sinais da subjectividade).
Conclusão
• O sujeito poético é
extremamente egocêntrico.
• Através da poesia, o Eu
poético confronta-se com o seu
destino.
• Devido ao egocentrismo, o
título de toda a sua obra
poderia ser «EU»!
•Por fim, o Eu poético relata a
razão da sua enorme angústia,
tristeza e frustração: o amor.
Filipa Quintas nº8
Joana Costa nº13
Rita Vieira nº23
Vanda Lopes nº28
10ºE
“Mãe”, de Miguel Torga
André nº3
Daniela nº7
Pamplona nº14
Rui nº25
Introdução
Poema
Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?
A composição poética “Mãe” é
representativa da poesia moderna
 O “Eu” depara-se com a realidade física da
morte, com a sua irreversibilidade
O “Eu” faz uma tentativa desesperada de
contacto com a Mãe
Como as estátuas que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
Análises formal e fónica
Que não tem coração dentro do peito.
 3 quintilhas e 1 quadra
Análises ideológica e estilística
Marcas do autor
 O título pode ser considerado uma apóstrofe, uma vez que o
poeta se dirige à mãe com intenção de lhe fazer em pedido ou uma
dedicatória
“O homem é, por desgraça, uma
solidão: Nascemos sós, vivemos
sós e morremos sós”.
Na primeira parte, situada na primeira e segunda estrofes, mostra
o que aconteceu, a morte, “Que desgraça na vida aconteceu”, do
mesmo modo, pode observar-se a cumplicidade e a intimidade
entre o “Eu” e o “Tu” (Mãe) através do uso de deícticos pessoais,
mas esta intimidade é quebrada pela morte.
A dupla adjectivação, “… sensível e gelada”, “severa e desenhada”
e o uso da metáfora, acentuam, em gradação crescente, a perda de
vida, das características humanas. O eufemismo,” Que não tem
coração dentro do peito”, mostra a dificuldade do “Eu” em aceitar a
realidade, a morte da sua mãe. Daqui pode concluir-se que a morte
é insuperável, uma vez que é irreversível.
Chamo aos gritos por ti - não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto – sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
 Nas três primeiras estrofes, a rima é
cruzada, na última, a rima é emparelhada e
interpolada
Por detrás do terror deste vazio.
Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!
 À excepção do verso “Mãe” e do verso
solto, “Como as estátuas que são gente
nossa”, os versos são todos decassílabos
Na segunda parte do poema, situada na terceira e na quarta
estrofes, existe uma tentativa de contacto com a mãe. A morte
quebra a intimidade, cria um afastamento, uma perda. Na quarta
estrofe, repetem-se anaforicamente as orações integrantes, “Que
és a eterna mulher entre as mulheres”, “Que nem a morte te
afastou de mim”, marcando o pedido desesperado do” Eu” face a
uma realidade inalterável e irreversível, que é a morte. Estas duas
estrofes pedem uma ressurreição, visível no uso do imperativo
“Diz…”, “Abre…”, marca um pedido desesperado.
As orações coordenadas denunciam, mais uma vez, a negação da
morte, “Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes”. “Que és
eterna entre as mulheres”, posiciona a mãe num estatuto elevado,
relembrando a Virgem Maria.
Miguel Torga
Diário I V (1949), S .Martinho de Anta,
1/6/1948
Assim concluímos que estas duas estrofes traduzem a tentativa de
contacto do” Eu” com a Mãe, mas também a aceitação da sua
realidade, “Que nem a morte te afastou de mim”, porém, esta frase
final, embora na forma negativa, manifesta a evidência da morte.
Conclusão
O “Eu” depara-se com uma realidade
que não pode ser alterada e que o
afecta particularmente, tendo em conta
que se trata da mãe.
Por isso, face a esta morte
irremediável, o “Eu” procura uma
ligação através do chamamento, uma
forma de lutar contra a morte, de
preencher o “vazio”.
O homem face à morte define a
condição humana, um tema recorrente
na obra de Miguel Torga, um poeta
humanista.
Referências
Manual de português do 12º ano (
Costa .A, Textos de literatura
portuguesa, ed.Asa)
Internet
http://nescritas.nletras.com/anobreinde
ce/
Escola Secundária Carlos Amarante
Ser Poeta,
De Florbela Espanca
Ser poeta
Introdução
A relação título/poema
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
No soneto, “Ser poeta” de Florbela
Espanca, o eu poético apresenta uma
definição do que é ser poeta e conclui
quanto à sua função no mundo dos
homens.
O título do poema “Ser Poeta” é já uma tentativa
de definição do que é ser poeta que se verifica
através do uso da anáfora e da hipérbole.
As anáforas “É ter” e “É ser” completam o título
para apresentar uma possível definição.
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
Este poema enquadra-se na obra da
autora que «concebe o poeta como um
ser único, divinamente inspirado».
O discurso hiperbólico demonstra que o poeta é
um ser de eleição no meio dos outros, é superior a
todos os outros seres, possui:
Florbela Espanca
A Florbela adapta um modo de
expressão, o soneto
decassílabo consagrado num
uso que vai de Camões até
Antero de Quental.
O que torna mais excepcional o
seu caso, uma vez que ela
consegue, de facto, revitalizar
esse género poético.
-grandeza, visível no grau comparativo de
superioridade ”é ser mais alto, é ser maior”;
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
Marcas de
Florbela Espanca
Análises formal e
fónica
É um soneto, tem duas quadras e dois
tercetos.
.
O esquema rimático é
abba/abba/cdc/ede. A rima é
emparelhada e interpolada nas quadras
e nos tercetos. Verifica-se que, ao longo
do poema, a rima é predominantemente
rica e perfeita.
É um poema com decassílabos
heróicos, pois os versos estão
acentuados na 6ª e 10ª sílabas.
- Vive, ama e deseja com intensidade, “morder
como quem beija”, o verbo morder, neste caso, é
retirar algo de alguém.
- Sente ansiedade e insatisfação, pois ser poeta é
viver num mundo de dor e a sua sede de querer ir
mais além é insaciável, ideia patente no uso da
hipérbole «É ter de mil desejos o esplendor» e das
antíteses “Aquém e de Além dor” e «ser mendigo e
dar»;
- generosidade para com os homens, visível na
comparação «dar como quem seja Rei»
No 2º terceto, chave d’ouro do poema, ser poeta é
ser superior aos homens porque é ser capaz de
amar intensamente, tal como se ama o seu amor, e
querer partilhar com todos, «Cantando a toda a
gente! (hipérbole).
Conclusão
Ser Poeta é ser superior a
todos os outros seres humanos,
é uma missão.
Ser Poeta é querer sempre ir
mais além, é nunca estar
saciado com o que tem e,
apesar das suas necessidades,
é capaz de amar perdidamente
e de anunciar o seu amor.
Ana Pinto
Joana Antunes
Orlanda Peixoto
10ºN
Escola Secundária Carlos Amarante
E tudo era possível,
de Ruy Belo
E tudo era possível
Na minha juventude antes de ter saído
de casa dos meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
Das páginas dos livros que já tinha lido
Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido
E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer
Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer
Introdução
O sujeito poético recorda a sua
infância como um momento de
felicidade.
Contudo, no presente, não
consegue rever-se na criança
desse passado, para quem tudo
era possível.
Análises formal e
fónica
• Soneto (2 quadras e 2 tercetos)
Ruy belo, Obra poética
• Predomina, no poema, a rima
emparelhada e interpolada.
Título “E tudo era possível” revela uma nostalgia do
passado, uma tristeza, um tempo feliz e irreversível.
A infância
É retratada como um tempo distante e contínuo, ideia
sugerida pelo uso do pretérito imperfeito com valor
durativo ”conhecia, chegava, era”. A metáfora ”rolo das
manhãs” também contribui para essa ideia porque nos
fala de um tempo sem limites.
A relação que a criança tinha com o mundo era através
das leituras “das páginas do livro que já tinha lido” e do
sonho “ era só ouvir o sonhador falar”, por isso “tudo era
possível” a infância é, assim, um tempo eufórico e idílico.
O adulto
• Na 1ª e na 2ª estrofes, todos os versos
são alexandrinos, à excepção dos
primeiros versos de cada terceto.
É uma idade em que o eu poético tem a consciência do
tempo passado, visível no verbo saber “só sei”, das suas
limitações “ e tudo era possível era só querer”. O uso do
pretérito imperfeito opõem-se aqui ao uso do presente do
indicativo “ só sei”, o que significa que este poder já não
se verifica no presente de enunciação, na idade adulta.
• A rima é rica, consoante, os versos
são graves excepto em “viajar”, “mar”,
“circular”,”falar”,”dizer” e “querer” que
são agudos.
Na idade adulta, conhece o mundo através das suas
viagens e acede ao conhecimento através de
experiências, nesta fase ocorre um crescimento do eu e
uma ruptura com a infância.
Musicalidade
John Brown
Análises ideológica e
estilística
Poema com características da escrita autobiográfica
Ana Isabel
Vasco
Fábio
Ana Filipa
10ºN
Marcas de Ruy
Belo
•Tema voltado para a realidade
interior em confronto com a
exterior.
• Nítida noção de tempo como
passagem, logo surge a
impossibilidade de recuperar o
passado e a infância
definitivamente distante.
• Musicalidade na sua poesia
• Pontuação rara.
Conclusão
• O poema celebra a magia da
infância.
• Ruptura com o passado e
impossibilidade de o recuperar.
• Dualidade: Passado/Presente
• Actualidade e universalidade
do tema.
Escola Secundária
Carlos Amarante
Poema à mãe
de Eugénio de Andrade
Menino, de Guignard
Poema à mãe
No mais fundo de ti,
Eu sei que traí, mãe.
Tudo porque já não sou
O retrato adormecido
No fundo dos teus olhos.
Tudo porque tu ignoras
que há leitos rumorosas de águas matinais.
onde o frio não se demora
E noites
Por isso, ás vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.
Se soubesse como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.
Mas tu esqueceste muita coisa:
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu ,
E até o meu coração
Ficou enorme mãe!
Olha – queres ouvir-me?
As vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;
Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;
Ainda ouço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio de um laranjal…
Mas - tu sabes - a noite é enorme
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei ás aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.
Introdução
Neste poema, o eu poético
dirige-se à mãe para lhe explicar
que a criança que foi cresceu.
Assim, podemos identificar dois
momentos na relação do eu com
a mãe:
• um amor feliz (passado);
• um amor infeliz (presente).
Mas o adulto reconhece que o
amor pela mãe ainda está
presente .
Analises formal e
fónica
Três dísticos, sete tercetos,
duas quintilhas, com um monóstico
final .
Rima solta e irregularidade
métrica
Repetição do vocativo “mãe” no
fim de versos, das palavras-chave
«esquecer», «crescer» e anáfora
«tudo porque» (funcionando como
refrão).
assonância em /i/, no início e no
fim do poema.
Boa noite. Eu vou com as aves.
Musicalidade
Oposição de dois amores
Amor feliz
Passado
(pretérito perfeito)
Amor infeliz
Presente
Adulto / Mãe
Criança / Mãe
Crescimento da
criança –
necessidade de
liberdade, de outro
amor
“o meu coração ficou
enorme mãe”
(hipérbole)
Imagem
aprisionada pela
mãe da eterna
criança,
«no retrato da
moldura»
Marcas de Eugénio de
Andrade
As aves são, para o autor,
particularmente importantes
pois “aves” simbolizam
liberdade e fragilidade.
As rosas brancas significam
pureza, algo que precisa de
protecção “no retrato da
moldura” (como a criança).
Conclusão
amor exclusivo
Eu / Mãe
“Rosas brancas”
(metáfora da
inocência)
“Aves”
(metáfora da
liberdade , da
viagem)
“ti…traí”
(rima interna)
O não esquecimento
de todos o que os
dois passaram
“se soubesses…não
enchesses”
(o conjuntivo
expressa o lamento)
Compatibilidade possível, «ainda» entre o
amor Mãe / Eu / Outro
O poema é uma dedicatória
à mãe
Oposição entre o amor feliz
(criança) e o amor infeliz
(adulto)
Crescer implica deixar a
criança que já fomos e pode
trazer sofrimento.
Alexandre Pinheiro nº3
António Correia nº8
Joana Martins nº13
Marisa Fernandes nº17
10ºN
Escola secundária Carlos Amarante
Soneto do cativo,
De David Mourão Ferreira
Análises ideológica e
estilística
Soneto do cativo
Se é sem dúvida amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;
O espelho deformante: a profusão
das frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que os outros dirão ou não dirão;
Se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de
desprezo;
Não há dúvida, Amor, que não te fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!
Introdução
• O eu poético demonstra ao longo
do poema que o amor e um
sentimento contraditório.
• Recupera o tema e a forma do
soneto “Amor é fogo que arde
sem se ver” de Luís de Camões.
Análises formal e
fónica
• Com duas quadras e dois
tercetos, é um soneto.
• Os versos são decassilábicos
heróicos , (acentuados nas 6ª e
10ª sílabas).
• Refrão: através das anáforas «Se
é sem duvida» e «Não há duvida».
• Faz deste autor um “Clássico da
Modernidade”
A sesta, Almada Negreiros, 1939
• A oração subordinada condicional “Se é
sem dúvida amor esta explosão / de
tantas sensações contraditórias” parte do
pressuposto que o amor é um sentimento
contraditório, tal como já o definia Luís
de Camões e anuncia uma enumeração
de hipóteses sobre uma definição do
amor, até ao último terceto, «chave
d’ouro».
Ao longo do soneto encontram-se muitas
presenças de antíteses que confirmam
esta ideia: «da verdade e da invenção»,
«dirão ou não dirão», «de encantamento e
de desprezo».
Assim, na segunda estrofe, o EU é
cúmplice do TU, não dando importância
aos outros, mas, simultaneamente, o EU é
cúmplice dos outros que não fazem parte
da relação, e aí a relação não faz
qualquer sentido. É sempre «O espelho
deformante»
No primeiro terceto, o eu poético evoca as
consequências do amor na sua pessoa
através da tripla adjectivação «cego,
surdo e sujo» que levam a que o eu se
sinta
eternamente preso, condenado a
Amar.
Marcas de David
Mourão Ferreira
• Poeta romancista, crítico e
ensaísta.
• Poesia caracterizada pelas
presenças constantes da
figura da mulher e do Amor.
• Poeta do erotismo da
literatura portuguesa.
Conclusão
• O eu poético vive
eternamente preso ao Amor
• Condenado a Amar
Vítor Macedo
Abel Abreu
André Costa
10º N
A Noite Desce,
de Florbela Espanca
ESCA
Catarina Alves
Cátia Castro
Liliana Oliveira
Roberta Costa
Sílvia Dias, 10º P
Marcas de Florbela Espanca
A Noite Desce
Introdução
Como pálpebras roxas que tombassem
Sobre uns olhos cansados, carinhosas,
A noite desce… Ah! doces mãos piedosas
Que os meus olhos tristíssimos fechassem!
O tema do poema é o amor,
simbolizado na relação do EU com a
noite, entidade personificada ao longo
do poema.
Assim mãos de bondade me embalassem!
Assim me adormecessem, caridosas,
E em braçadas de lírios e mimosas,
No crepúsculo que desce me enterrassem!
O poema pode ser dividido em duas
partes, uma primeira parte em que está
patente o desejo do eu; e uma segunda
parte com a concretização desse
desejo.
A noite em sombra e fumo se desfaz…
Perfume de baunilha ou de lilás,
A noite põe-me embriagada, louca!
Assim, ao longo do poema, a relação
Eu/Noite vai-se intensificando.
E a noite vai descendo, muda e calma…
Meu doce Amor, tu beijas a minh’alma
Beijando nesta hora a minha boca!
Análises formal e fónica
Sonetos
Este poema é um soneto clássico
(duas quadras e dois tercetos e é
decassilábico).
Nas duas quadras, a rima é
emparelhada e interpolada, é pobre e
consoante.
Nos dois tercetos, a rima é
interpolada e emparelhada, é rica e
imperfeita “desfaz” e “lilás”, excepto nos
dois primeiros versos do último terceto,
onde é pobre e perfeita “calma” e
“alma”, e é também toda ela consoante.
Análises ideológica e estilística
O desejo é visível no uso do Pretérito imperfeito
do
conjuntivo
nos
verbos
“tombassem”,
“fechassem”,
“embalassem”,
“adormecessem”,
“enterrassem” onde se pode verificar uma gradação
crescente do efeito da noite sobre o eu, até uma
espécie de morte sensual. A noite é criadora de
múltiplas sensações, visuais «pálpebra roxa» e
tácteis «carinhosas».
Assim, a noite, simboliza o outro, a pessoa
amada que desperta o desejo do eu, ideia sugerida
com a comparação, “Como pálpebras roxas que
tombassem”, aí a noite é comparada às partes do
corpo humano, com cores, como roxo, cor da
paixão; Temos também a anáfora, “Assim mãos…”,
“Assim me adormecessem” serve para demonstrar
a maneira como o EU gostaria de ser tratado pela
noite/outro. Em suma, o desejo é despertado com o
cair da noite, confundindo-se mesmo com este
momento de intimidade.
Na segunda parte, há a concretização deste
amor, é evidente a existência de outras sensações,
a olfactiva, “Perfume de baunilha ou de lilás”, e a
táctil, “Beijando nesta hora a minha boca!”.
É um amor tanto a nível espiritual “Meu doce
Amor, tu beijas a minh’alma” , como carnal
“Beijando nesta hora a minha boca”, e, sendo
assim, podemos dizer que é a concretização de um
amor total, patente no uso da maiúscula na palavra
“Amor” ou de entrega total, materializada no beijo,
símbolo de união.
Florbela, poetisa, não pode ser
separada da sua condição de
mulher, das suas paixões, da sua
maneira de ser, da sua vida, das
suas contradições, humildade e
orgulho,
preconceitos,
sua
presença e ausência, seus amores
e desamores. O seu egocentrismo,
que não retira beleza à sua poesia,
é
evidente.
A
sua
única
preocupação é ela própria, o amor,
a paixão, o querer e o não querer.
A sua escrita é notável a
intensidade de um transcendido
erotismo feminino. A sua escrita
situa-se sobre tudo no campo da
paixão humana. Há um número de
palavras
em
que
insiste
incessantemente, o Eu, o amor, a
alma e os beijos são as que se
encontram neste poema,
Conclusão
O desejo é acompanhado pela
libertação de um amor que perde
os seus obstáculos para poder ser
vivido.
No poema, está patente a ideia
de um amor entre um Eu e um
Outro que partilha de um amor
total.
Este poema, de forma clássica,
é uma apologia da sensualidade e
da paixão romântica.
«http://www.zonalibre.org/blog/parafrenia/archives/florbela.jpg»
«http://i2.photobucket.com/albums/
Escola Secundária Carlos Amarante
«Praia do Encontro»,
de David Mourão - Ferreira
Praia do Encontro
Esta imaginação de sal e duna,
Inquieta e movediça como areia,
Ergue, isolada, a praia, mais a espuma
Que sereia nenhuma
Saboreia…
Quisesses tomar tu este veleiro,
Que em secreto estaleiro construí,
Sem velas, sem cordame, sem madeira,
-Mas branco!, é todo inteiro
para ti…
Brilha uma luz de morte sobre o porto
Saído mesmo agora da memória…
Ali estarei à tua espera, morto,
Ou vivo em minha morte
Transitória…
Combinado. Que eu juro não faltar!
Contrário de Tristão, renascerei,
Se pressentir, aérea, sobre o Mar,
A sombra singular
Do barco que te dei.
David Mourão -Ferreira
Imagem
Introdução
A ideia fundamental do poema
está baseado no Amor para além
da morte (o veleiro depois da
morte – Amor espiritual).
O poema versa sobre o Amor que,
por ser poderoso, seria capaz de
existir ainda depois da morte, é,
assim, a promessa de um amor
eterno exprimido através da
metáfora da viagem marítima.
Análises formal e
fónica
A composição poética é
constituída por 4 quintilhas com
rimas emparelhadas e ricas; rimas
cruzadas, toantes, rimas cruzadas
consoantes e ricas; rimas
interpoladas; versos brancos.
Os 3 primeiros versos de cada
estrofe são decassilábicos; o 4º
e o 5º versos, no seu conjunto,
também têm 10 sílabas métricas,
o que dá ao poema um ritmo
regular de 4 versos
decassilábicos.
Todos os versos decassilábicos
são heróicos, à excepção do
verso 13, (que é sáfico).
Os dois últimos versos são
hexassilábicos e são acentuadas
na 2ª e 6ª sílabas.
Análises ideológica e
estilística
Título: “Praia do Encontro” sugere uma
dupla união: da terra com o mar - estado
sólido com o líquido -, da vida com a
morte. Assim simboliza o amor entre duas
pessoas.
Na 1ª estrofe, o eu poético recorre à sua
imaginação para erguer o cenário da
praia “esta imaginação de sal e duna, /
inquieta e movediça como a areia…”, em
que se instalam os elementos marítimos
“sal, duna…”.
Na 2ª estrofe, o eu poético refere-se
essencialmente ao veleiro, como
metáfora da viagem, no qual “sem velas”,
o seu amor irá prosseguir para além da
morte, com a esperança de que a sua
amada o irá corresponder, um desejo
expresso no uso do pretérito imperfeito do
conjuntivo “Quisesses”. O eu lírico
destaca o amor como viagem, nas águas
da vida e da morte continuamente, sem
interrupções, símbolo do amor eterno.
Na 3ª estrofe, a sua imaginação situa-o
depois da morte, onde ele estará à sua
espera, aconteça o que acontecer.
Ao longo do poema, os deícticos eu / tu
asseguram a proximidade entre os
amantes.
Na 4ª estrofe, o eu poético jura “não
faltar!” ao encontro; (o uso da frase
exclamativa, marca a determinação do eu
em continuar a amá-la mesmo para além
da morte) “ali estarei, à tua espera, morto,
/ ou vivo…”. Retrata, efectivamente, a
existência de um amor espiritual onde o
amor dá a vida “renascerei” (no futuro do
indicativo).
Marcas de David
Mourão –
Ferreira
Tema do amor espiritual
O poeta retrata e dá muita
relevância ao sentimento do
amor.
Na maioria das suas obras
explora e desenvolve
essencialmente o tema do amor.
Conclusão
O eu poético, com base na
sua imaginação, constrói o
cenário da praia onde situa o
veleiro como símbolo de vida
e de amor.
Assim, é a correspondência do
amor como vida íntima e
secreta, que a memória não
apagará, com a pretensão de
um encontro depois da morte,
na esperança de um amor
eterno.
O poeta só existe com a
presença do amor dela,
independentemente da vida
humana.
Ângela Silva
Cidália Oliveira
Joana Cunha
Marta Lopes
10º P
“O Retrato”, de Eugénio de Andrade
Retrato
No teu rosto começa a madrugada.
Luz abrindo,
De rosa em rosa,
Transparente e molhada.
Melodia
distante mas segura;
Irrompendo da terra,
Quente, redonda, madura.
Mar imenso,
Praia deserta, horizontal e calma.
Sabor agreste.
Rosto da minha alma.
Eugénio de Andrade,
Os Amantes sem Dinheiro
Introdução
• Poema representativo da obra
“Os Amantes sem Dinheiro”
• Retrato concentrado no rosto
• Rosto como fonte de várias
sensações
Análises formal e fónica
Poema constituído por 3 quadras,
em que predominam rimas ricas,
consuante interpolada que confere
musicalidade ao poema.
Esquema rimático: 1º-AA 2º-BB
3º-CC
O título Retrato: da
representação à sugestão
Modigliani, Retrato de Mulher
Os retratos clássicos tinham como
função representar alguém quer na
exposição dos seus traços físicos,
quer na apresentação do carácter da
personagem. Mas, com o
aparecimento da fotografia, no séc.
XIX, o retrato deixou de procurar
representar a personagem, para dar
sensações a partir da impressão
criada no EU, ao ver ou ao recordar o
rosto da amada. Esta mudança
verificou-se na pintura e na literatura.
Análises ideológica e
estilística
• O poema inicia com uma frase completa «No
teu rosto começa a madrugada…» , mas a partir
da referência ao rosto da amada, predomina o
assíndeto, revelador de um conjunto de
fragmentos, visíveis na justaposição de frases
nominais, cada uma iniciada por uma sensação
diferente «Luz, Melodia, Mar e Sabor».
Bruno Pereira nº 4
Filipe Faíscas nº 10
João Duarte nº 14
Nordine Benbelaïd nº 20
Diogo Carvalho nº 2, 10º P9
Marcas de Eugénio
de Andrade
Estilo individual numa direcção oposta
à poética pessoana, naquilo em que
esta se mostra distanciada da
exaltação do sensualismo, da
afirmação da corporalidade .
A dupla adjectivação contribui para criar as mais
diversas sensações «Transparente e
molhada», «distante mas segura», assim como a
tripla adjectivação «Quente, redonda, madura»,
«Praia deserta, horizontal e calma».
Assim o retrato é produtor de:
Sensações visuais (Luz, Mar, Praia), auditivas
(Melodia), gustativas (sabor). Todas estas
sensações são despertadas no autor pelo rosto
da pessoa retratada.
Sinestesia
O rosto remete para os elementos Terra e Água
e também para uma paisagem infantil. Este
poema retrata o amor e também a fertilidade
proveniente deste amor. Há uma percepção
disso com o uso sucessivo de descrições de
paisagens, pois existe um constante uso de
adjectivação para caracterizar a Terra «Quente,
redonda, madura», semelhante a um ventre
grávido.
No fim do poema concretiza-se a união como
símbolo do amor: “No teu rosto” → “Rosto da
minha Alma”.
Conclusão
Podemos concluir que este
poema reflete algumas das
marcas de Eugenio de Andrade,
nomeadamente a exaltação do
sensualismo e da afirmação da
corporalidade. Ele usa o rosto
como fonte de várias sensações
e o retrato e baseado no mesmo.
ESCA
E Tudo Era Possível
Ruy Belo
Inês Chelo; Patrícia Monteiro; Sara Vieira; Sofia Oliveira 10ºP
E Tudo era Possível
Na minha juventude antes de ter saído
De casa dos meus pais disposto a viajar
Eu conhecia já o rebentar do mar
As paginas dos livros que já tinha lido
Chegava ao mês de Maio era tudo florido
O rolo das manhãs punha-se a circular
E era só ouvir o sonhador falar
Da vida como ela houvesse acontecido
Introdução
• Recuperação das formas
• Descrição do tempo da infância
• Espécie de autobiografia
• Ruptura entre infância e idade adulta
E tudo se passava numa outra vida
E havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer
Só sei que tinha o poder duma criança
Entre as coisas e mim havia vizinhança
E tudo era possível era só querer
Análises formal e
fónica
•2 quadras e 2 tercetos = soneto
• Métrica e ritmo regulares: todos
alexandrinos excepto o primeiro verso
de cada terceto
• Rima predominantemente pobre
«saída/lido» mas com algumas ricas
«viajar/mar»
•Predominância de 2 sons ao longo do
poema:
Assonância em i- tempo eufórico da
infância
Aliteração em r- continuidade - tempo
que se expande, se dilata no som e no
verso longo
*2
Análises ideológica e
estilística
•Título: demonstra, através do uso do pronome
indefinido ‘’Tudo’’ que, na infância, todos os
sonhos se podem concretizar.
Na primeira parte, retrata-se a infância.
A criança vive o presente, não pensando no
futuro, nem tendo consciência do tempo
passar. Esta ideia é reforçada pela metáfora
«o rolo das manhãs punha-se a circular». Não
há início nem fim, ideia reforçada com o uso do
pretérito imperfeito com valor durativo.
Quando refere «casa dos meus pais» associa a
infância à protecção.
Através da leitura, a criança relaciona-se com
o mundo, adquirindo uma experiência interior:
«eu conhecia já o rebentar do mar das páginas
dos livros que já tinha lido».
Na segunda parte, é revelado o facto de ele
ter viajado. Isto marca a ruptura entre a
infância e a idade adulta, pois «viajar»
simboliza o contacto com o exterior,
demonstrando insegurança, incerteza mas
também experiência e crescimento.
Verifica-se uma anáfora e pollissíndeto «E
tudo se passava numa outra vida e havia para
as coisas sempre uma saída». A memória vai
recuperando fragmentos do passado e através
do conector neutro ‘’e’’ liga as imagens que lhe
surgem. Por outro lado, o presente marca o
tempo de consciência.
*3
Marcas de Ruy Belo
«E, finalmente, a palavra poética é universal
porque abstracta (…) Despida de
circunstâncias que rodearam o seu
nascimento, existe como mensagem de uma
experiência não só do poeta mas de todos os
homens. Por isso estes podem reconhecer
nessa palavra a sua própria palavra» *1
Conclusão
A primeira parte retrata a alegria de ser
criança e a segunda, a dor de crescer.
O autor exprime a saudade da segurança, da
irresponsabilidade, da ingenuidade e da
alegria que caracterizam a infância e revela a
saudade face ao crescimento que não pôde
impedir.
Ruy Belo, ao longo da sua obra, retrata
bastante o tema já aqui referido pois acha
que a poesia é uma forma de “vencer o
tempo” tornando a sua infância imortal.
A transição da criança para a idade adulta é
sempre um tema actual. É, de igual modo, um
tema universal.
Referências
*1- Obra Poética de Ruy Belo, Vol.3,
Editorial Presença, pp.69-70
*2- amata.weblog.com.pt
*3- www.iplb.pt
ESCA
Carta da Infância
Amigo luar:
Estou fechado no quarto escuro
e tenho chorado muito.
Quando choro lá fora
Ainda posso ver as lágrimas caírem na palma
das
minhas mãos e brincar com elas ao orvalho
nas flores pela manhã.
Mas aqui é tudo por demais escuro
E eu nem sequer tenho duas estrelas nos olhos
Lembro-me das noites em que me fazem deitar
tão
cedo e te oiço bater, chamar e bater, na
fresta
da minha janela
Pelo muito que tenho perdido enquanto durmo
vem agora,
no bico dos pés
para que eles te não sintam lá dentro,
brincar comigo dos presos no segredo
quando se abre a porta de ferro e a luz diz :
bons dias, amigo.
Carta da Infância,
de Carlos de Oliveira
Introdução
O poema “Carta da infância”, da
autoria de Carlos de Oliveira, pertence à
obra “Terra de Harmonia”. A estrutura
do poema é a de uma carta, (não tem
composição poética específica), é
direccionada ao luar. Ao longo do
poema, podemos distinguir duas fases
simultâneas:
a
opressão
e
o
encarceramento físico e, por outro lado,
a liberdade mental conseguida pelo
devaneio, pelo sonho. Esta divisão
justifica-se, primeiramente, pelo uso da
pontuação, visto que cada vez que o
autor muda de um assunto para outro
utiliza um ponto final, à excepção do
primeiro verso, (saudação inicial) e dos
dois últimos, (referentes à liberdade
mental). Em segundo, pelo recurso a
analepses, uma vez que para expressar
a liberdade precisa, não só, de sonhar,
mas também, de a recordar.
Análises formal e fónica
A rima é predominantemente solta,
encadeada em b e l; é pobre e
consoantes; o verso é irregular, uma vez
que é escassa a repetição, ao longo do
poema, do mesmo número de sílabas
métricas.
Poesia livre.
Análises ideológica e estilística
A primeira parte tem como tema a opressão,
aquela que é vivida no momento de enunciação,
ao qual se associam as expressões: “aqui”, “quarto
escuro”, “noites”, e, “porta de ferro”; elementos
caracterizadores da solitária em que o eu se
encontra preso.
Os tempos verbais estão predominantemente
no presente do indicativo: “tenho”, “é”, “tenho
chorado”, “tenho perdido”, as quais prolongam
indefinidamente a angústia.
O eu poético sente-se uma criança, associa o
seu estado de opressão aos castigos “no quarto
escuro”,provocando sentimentos de injustiça,
solidão, angústia, medo; tal como o eu poético, na
sua cela.
A assonância em «a»: “fechado”, “quarto”,
“orvalho”, “chorado”, reforça o estado físico de
opressão, sendo que o «a» exprime o lamento.
Em contraponto à ideia de opressão, surge a
liberdade, situada “lá fora”, e associada aos
elementos eufóricos: “orvalho”, “flores”, “estrelas”,
“manhã” e “luz”. Nesta parte, o eu poético recorda
aventuras vividas em liberdade, nomeadamente,
com o luar, com o qual o se relaciona afavelmente,
visto que lhe chama “amigo”; ao contrário da sua
relação com “eles”, os opressores que são
corporizados, neste pronome pessoal sem
referente, como o desconhecido, ou seja, uma
ameaça assustadora, aplicável a toda a forma de
opressão gratuita.
A personificação do luar: “amigo luar”, “vem agora,
/ no bico dos pés (…), brincar comigo”, procura a
fraternidade/intimidade do eu com o luar, pois o
luar é a ponte para a libertação, para o sonho e
evidencia o contacto através da voz e da presença
na cela, pois “a luz diz: / bons dias amigo”.
Marcas de Carlos
de Oliveira
•Tema da liberdade mental e
opressão física.
• O poeta tem consciência de
que por mais que lhe tirem a
liberdade física, nunca lhe
podem tirar a mental.
• Pontuação rara.
Conclusão
A liberdade de espírito nunca
pode ser retirada por mais “porta de
ferro” que se coloque à volta do eu,
pois, há sempre formas de ele se
libertar da opressão, a poesia,
neste caso, como a concretização
de um sonho.
Carlos de Oliveira foi preso político,
o que coincide com a data em que
o poema foi escrito, 1950.
Precisamente, enquanto decorria o
Estado Novo.
Arminda Fernandes nº2
Bruna Costa nº3
Diana Costa nº9
Armanda Oliveira nº18
Sara Silva nº24
10ºP
Claro-escuro
Miguel Torga
Cristiana Cunha
João Quaresma
Lino Magalhães 10ºP
Claro-escuro
Dia da vida
noite da morte
O verso
E o reverso
Da medalha
E não há desespero que nos valha
nem crença
Nem descrença
Nem filosofia
Esta brutalidade e nada mais
Sol e sombra - o binómio dos mortais
Só que o sol vem primeiro
E a sombra depois ...
E á luz do sol é tudo o que sabemos
Juventude
Beleza
Poesia
E amor
Amargo fruto que na sepultura
Em vez de apodrecer, ganha doçura
Introdução
A composição poética, Claro-escuro,
realça a presença da morte na
condição humana.
Análises ideológica e
estilística
•Título – «Claro-escuro» engloba e anuncia
todas as oposições referidas no poema, pois
dá logo conta da dualidade humana.
Assim, este poema, num primeiro
momento, situado na 1ª estrofe,
apresenta a dualidade da existência
humana, a vida ligada à morte, e, na
2ª estrofe, enuncia formas que
ultrapassam a lei da morte.
• 1ª parte – O binómio vida / morte, é
Análises formal e fónica
O eu poético define assim a condição
humana, ou seja, para estar vivo é preciso
morrer, a morte é tão presente quanto a vida e
o homem nada pode fazer para compreender
esta realidade, daí o uso da negação simples
e da tripla negação « não (...) nem (...) nem
(...) nem».
No poema a métrica é irregular, e há
predominância de versos soltos.
Na 1ª estrofe, predominam rimas
emparelhadas, os restantes versos
são soltos e terminam com as palavras
chaves do poema, «vida, morte,
filosofia», pois o poema é uma
reflexão sobre a vida e a morte.
Há também uma alternância entre a
rima rica, e a rima pobre, mas
predomina a pobre.
Imagemhttp://luzdaminhaalma.zip.net/images/espiritujpg.JPG
Fótografia de Miguel Torga
http://viladoconde1.blogs.sapo.pt/arquivo/torga1.gif
exemplificado nas antíteses:
Claro / escuro
dia / noite
vida / morte
verso / reverso
crença / descrença
• 2ª parte - O eu lírico contrapõe ao vazio
da morte uma realidade eterna, ou seja,
«Juventude/Beleza/ Poesia e Amor»,
constituindo cada uma um verso por si só. São
criações humanas sobre as quais a morte não
tem poder, pois é sobretudo por elas que a
vida vale a pena ser vivida.
A metáfora “amargo fruto na sepultura, em vez
de apodrecer, ganha doçura”, traduz como o
amor, como certos frutos, resiste à corrupção
do tempo porque cristaliza no próprio açúcar.
Marcas de Miguel
Torga
• “ intensa consciência individual
aliou-se, no entanto, uma profunda
afirmação da sua pertença à
natureza humana, com que se
solidariza na oposição a todas as
forças que oprimam a energia viva e
a dignidade do homem.”
• “animam o instinto humano na sua
luta dramática contra as leis que o
aprisionam. “
Conclusão
A composição poética, Claro-escuro,
de Miguel Torga reflecte sobre a
condição humana, uma tentativa
recorrente na obra do autor.
São características na linguagem e
estilo da poesia de Miguel Torga, uma
intensa consciência individual, aliada
a uma profunda afirmação da sua
pertença à natureza humana, com
que se solidariza na oposição a todas
as forcas que oprimam a energia viva
e a dignidade do homem. Animam
também o instinto humano na sua
luta dramática contra as leis, (neste
caso a morte) que o aprisionam.
Um Carnaval,
de Alexandre O´Neill
Um Carnaval
Vem ao baile vem ao baile
Pelo braço ou pelo nariz
Vem ao baile vem ao baile
E vais ver como te ris
Deixa a tristeza doer
As unhas de desespero
Deixa a verdade e o erro
Deixa tudo vem beber
Vem ao baile das palavras
Que se beijam desenlaçam
Palavras que ficam passam
Como a chuva das vidraças
Vem ao baile oh tens de vir
E perde-te nos espelhos
Há outros muito mais velhos
Que ainda sabem sorrir
Vem ao baile da loucura
Vem desfazer-te do corpo
E quando caíres de borco
A tua alma é mais pura
Vem ao baile vem ao baile
Pelo chão ou pelo ar
Vem ao baile vem ao baile
E verás o que é bailar.
Alexandre O’neil
No Reino da Dinamarca
Introdução
O poema “Um Carnaval” escrito por
Alexandre O’Neill baseia-se na época
do Carnaval, pois sendo uma época
festiva, de divertimentos e folias
apela a um processo de purificação
do “eu”, o que remete para uma das
simbologias do Carnaval.
•Título: O leitor associa o título à época festiva
do Carnaval com as suas características.
Mas o determinante artigo indefinido “Um
(Carnaval)”, especifica um Carnaval, neste caso,
é um Carnaval que o eu poético imagina e cria.
Por isso, Carnaval» deve ser entendido no seu
sentido simbólico.
As várias fases de um Carnaval
• Convite com insistência com as anáforas
O eu poético, apela, como no
Carnaval, a que nos revelemos
verdadeiramente, deixando cair a
máscara que usamos diariamente.
Análises formal e
fónica
«Vem…», «Deixa…» (imperativo dirigido a um
TU);
• Recusa de uma sociedade
racional: no dia de Carnaval, as
pessoas revelam-se por oposição
ao quotidiano, sem humor e sem
imaginação;
• Musicalidade na sua poesia;
• Pontuação quase inexistente.
• Promessa «vais ver» (presente com valor
futuro) e «verás» (no futuro do indicativo);
• Esquecimento do eu comum, da «tristeza», do
«desespero,», e de «a verdade e o erro»;
• Confrontação do eu com as suas várias
máscaras, «perde-te nos espelhos»;
• O poema é constituído por 6
quadras (uma medida popular,
própria de uma época de festa como
o Carnaval)
• Libertação pela «loucura»
• Inicia e fecha com rima cruzada na
1ª e última quadra e, nas restantes, a
rima é emparelhada e interpolada
(BCCB;DEED; FGGF).
No fim do poema, retoma do refrão inicial, novo
convite (será para o leitor?), «vem ao baile, vem
ao baile».
• Os versos são todos heptassilábicos
(medida popular) e repete-se o verso
“Vem ao baile vem ao baile”,como
uma espécie de refrão.
Marcas de
Alexandre O´Neill
• Purificação «desfazer-te do corpo»
«A tua alma é mais pura»
Este poema apresenta, de forma simbólica, a
transformação interior que consiste em desfazerse do velho, dos hábitos e dos constrangimentos
do quotidiano, para renascer como novo, sem
máscara, ou sem mau estar.
Conclusão
O poema representa uma época
em que nos podemos revelar, ou
seja, o Carnaval. Este pode estar a
retratar o “momento” da vida onde
realmente mostramos quem
somos, pois no dia a dia é que
estamos realmente mascarados.
No entanto só nos apercebemos
disto na época do Carnaval! Mas
os Surrealistas portugueses
procuram uma coincidência entre
as dicotomias real/imaginário,
consciente/ inconsciente.
Elisa Pereira-nº16
João Paulo Pereira-nº14
Mariana Coelho-nº17
Sara Rocha-nº25
Elsa Silva-nº11
10ºZ
Escola Secundária Carlos Amarante Lágrima de preta,
De António Gedeão
Ana Leite, Ana Lima, Ana Gonçalves, Sara Gonçalves, João Pinto
Lágrima de Preta
Encontrei uma preta
Que estava a chorar
Pedi-lhe uma lágrima
Para a analisar.
Recolhi a lágrima
Com todo o cuidado
Num tubo de ensaio
Bem esterilizado.
Olhei-a de um lado,
Do outro e de frente:
Tinha um ar de gota
Muito transparente.
Mandei vir os ácidos,
As bases e os sais,
As drogas usadas
Em casos que tais.
Ensaiei a frio,
Experimentei ao lume,
De todas as vezes
Deu-me o que é costume:
Nem sinais de negro,
Nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
E cloreto de sódio.
António Gedeão,
Máquina de Fogo (1961)
Introdução
• A composição poética “Lágrima de
preta”, da autoria de António Gedeão, é
representativa da obra do autor. Este
utiliza a ciência para tentar provar a
fundamentação científica do racismo, ou
seja, se existe ou não diferença entre
“brancos” e pessoas de cor.
• Para demonstrar a existência ou não
desta diferença, o poema privilegia os
passos que o método científico utiliza.
Análises ideológica e
estilística
•Título: sugestão de uma realidade concreta.
Anuncia um discurso claro e científico
Método Científico
Pressuposto: Existe diferença entre pretos e
brancos.
Experiência:
• Busca de um corpos (lágrima de uma preta).
• Recolha desse corpos “Recolhi a lágrima”.
Análises formal e fónica
• 6 quadras (expressão popular) com versos
em redondilha menor.
• Rima pobre do segundo verso com o quarto.
Contextualização do poema
Este poema foi escrito em 1961, ano em que
iniciou a guerra colonial.
É então avivado o preconceito segundo o qual
o negro é inferior ao branco, devendo, por
isso, permanecer sob a tutela de Portugal.
Os negros sofrem agressões físicas e
psicológicas gratuitas, são vítimas de racismo.
• Observação “Olhei-a de um lado,/ Do outro e de
frente”. (advérbios)
• Análise e experimentação “Ensaiei a frio,/
Experimentei ao lume”.
• Conclusão: «Nem sinais de negro / Nem sinas de
ódio» (dupla negação – do preconceito -).
Sintomas do rigor científico:
• Verbos de acção objectiva: encontrei, recolhi,
mandei, ensaiei.
• Nomes concretos, do campo lexical da ciência:
ácidos, bases, sais, tubo de ensaio, água, cloreto de
sódio.
A objectividade e a imparcialidade da ciência
evidenciam a acientifcidade do preconceito e
denunciam assim a crueldade do racismo.
África, de Lívio Morais
Conclusão
• Neste poema, tenta-se fazer
uma desconstrução do
preconceito das raças superiores.
• Coloca-se, assim, a questão da
intolerância, cuja manifestação
máxima é o racismo.
• Uma das marcas da capacidade
inovadora e do seu sentido de
modernidade de António Gedeão
consiste em ter transposto para o
domínio da poesia a cultura
científica, plasmando-a nas
formas de expressão tradicionais
(populares e “clássicas”),
humanizando-a e conseguindo
uma síntese notável entre sentido
do rigor da ciência e
harmonização poética.
Viagem,
de Miguel Torga
Ana Isabel Marques, Diana Rita Coelho, Nuno Miguel Silva, Bruno Vilas Boas, Ana Rita Ribeiro
Introdução
Viagem
• O tema é a vida (a procura da
felicidade ou do sentido da vida).
Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar…
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).
Prestes larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura…
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.
Miguel Torga, Câmara Ardente
• Existe um carácter alegórico em
todo o poema: viagem – vida.
• O poema está dividido em dois
momentos: a preparação e a
realização da viagem.
• É característico da poesia
moderna e da obra do autor.
Análises formal e
fónica
• 2 estrofes: 11 e 9 versos
(novena)
• Irregularidade na escansão dos
versos (longos e curtos)
• Recurso ao encavalgamento

contribuem para o ritmo
• Rima consoante
• Rima no interior dos versos
(repetição de sons:
•na primeira estrofe – ei ;
•na segunda estrofe – i, m)

contribuem para a
musicalidade.
Análises ideológica e
estilística
• Título
Vago, sem determinantes nem
caracterização;
Identifica-se com o tema;
Permite várias interpretações: a viagem
marítima (real) e a viagem da vida
(simbólica).
•Nomes
Concretos:
Campo lexical de
“Mar”
Abstractos:
Sentimentos do
sujeito poético.
•Verbos
Pretérito perfeito (acção concluída)
Pretérito imperfeito (valor durativo,
realidade prolongada no passado);
Presente do indicativo (realidade
permanente).
• Coordenação

Carácter dinâmico, narrativo.
Estrofe a estrofe
• Preparação (espiritual) para a viagem:
- sonhos, ilusões;
- consciência das dificuldades;
- motivos: a procura da felicidade.
• Realização da viagem:
- partida; solidão; depara-se com
obstáculos;
- contudo, não desiste, persevera;
- ”O que importa é partir, não é chegar”
Marcas de Torga
• “É então um individualista, um
escritor isolado, colocado no centro
de uma dupla exclusão a dos
censores salazaristas e a do
regime literário vigente.”
• “Torga é simultaneamente poeta
de angústia e o poeta de
esperança (…). Angústia
provocada (…) pelas mortes em
vida, pela morte final.”
Conclusão
• Relata o decorrer da vida: as
esperanças e as dificuldades;
• Explora a condição humana;
abarca o leitor, pois todos
estamos sujeitos à viagem.
• Transmite uma mensagem de
alento (embora a morte seja
um fim inevitável, devemos
seguir sempre os nossos
sonhos mesmo com
dificuldades que surjam)
• Tema actual e universal
• Influências da História e
literatura portuguesas: o
recurso à viagem marítima
Rita Pontes, Elodie, Rafael, Alexandra e Marina
“E tudo era possível” de Ruy Belo
Introdução
«E tudo era possível»
Na minha juventude antes de ter saído
De casa dos meus pais disposto a viajar
Eu conhecia já o rebentar do mar
Das páginas dos livros que já tinha lido
Chegava o mês de Maio era tudo florido
O rolo das manhãs punha-se a circular
E era só ouvir o sonhador falar
Da vida como se ela houvesse acontecido
E tudo se passava numa outra vida
E havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei
dizer.
Só sei que tinha o poder duma criança
Entre as coisas e mim havia vizinhança
E tudo era possível era só querer
Ruy Belo, Obra Poética
O soneto “E tudo era possível” de
Ruy Belo é representativo de um
tipo de poesia revolucionária não
pelo significado dos enunciados,
mas pela estrutura das
enunciações, ou seja, tudo o que
fosse um tipo de discursivismo
“barato” era rejeitado.
O sujeito de enunciação, neste
poema versa sobre a sua
infância, onde descreve um eu
criança, distanciado pelo tempo,
mas ao mesmo tempo preso a
uma realidade que são as
lembranças de um tempo que não
sendo muito distante, atingiu
impossibilidade de retorno, não
sendo mais possível aquilo que
outrora teria vivido.
Análises formal e
fónica
O soneto é constituído por duas
quadras e dois tercetos.
Análises ideológica e
estilística
Poema autobiográfico, o título “E tudo era possível”
marca a divisão do tempo em dois momentos, ao longo
do poema.
Marcas de Ruy
Belo
• Lembrança do passado, da
infância e deambulação pelo
tempo
• Versos longos
O primeiro momento está presente nas duas quadras e
nos dois primeiros versos do primeiro terceto. Aí, o eu
poético exprime a saudade do tempo em que não havia
responsabilidades, ou seja, um tempo perfeito, pois uma
criança não tem noção do tempo, logo existe sempre uma
sensação de felicidade. A metáfora “O rolo das manhãs
punha-se a circular”, e o uso do pretérito imperfeito
sugerem a continuidade do tempo, uma espécie de
“Carpe Diem”.
Por outro lado, a protecção, ideia patente no espaço da
casa e da presença dos pais “Na minha juventude (…)
casa dos meus pais” também privilegiam o tempo d
infância. O eu poético refere ainda o modo como o seu
contacto com o mundo se fez através da leitura “Das
páginas dos livros que já tinha lido”, e do sonho produtivo
de mundos extraordinários “E era só ouvir o sonhador
falar/da vida como se ela houvesse acontecido”. Assim a
infância é marcada pelo poder da imaginação.
A rima é emparelhada e
interpolada.Na primeira quadra, no
segundo e terceiro verso, temos
rima rica (viajar e mar). No resto do
poema verifica-se rima pobre.
A rima é consoante por todo o
soneto
O segundo momento está situado na terceira estrofe,
onde o eu poético se questiona, criando, assim, uma
ruptura no tempo “Quando foi isso?”, onde ele acorda e
se dá conta que essa realidade terminou e que é
irrecuperável, restando-lhe apenas a lembrança, não no
tempo, ideia patente no uso da negação “eu próprio não o
sei dizer”. Na última estrofe, o sujeito de enunciação toma
consciência de que agora não tem “o poder duma
criança” mas apenas uma mera recordação.
Relativamente á métrica temos
uma unidade de versos
alexandrinos que vai de encontro
com dois versos de onze sílabas (o
1º de cada terceto).
No segundo verso da primeira quadra, depois de viajar
“(…) disposto a viajar”, o eu poético toma consciência de
que cresceu e que esse crescimento trouxe consigo o
cargo das responsabilidades, preocupações, afastando-o
da infância.
• Discursivismo “barato” rejeitado
Conclusão
O sujeito de enunciação toma
consciência da passagem do
tempo e da impossibilidade de
recuperar o passado, a infância.
Encontra-se definitivamente
distante, colocando-se assim uma
questão “Quando foi isso?”, mas
para qual não tem resposta “Eu
próprio não dizer”.
Tal como Ruy Belo, existem outros
escritores, como Sophia de Mello
Breyner, Eugénio de Andrade, que
escrevem também sobre a
infância.
O crescimento traz consigo a
noção de responsabilidades e das
prioridades, afastando-nos cada
vez mais da infância.
Referências
Belo, Ruy. Obra Poética