Conto da Mulher Brasileira

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Transcript Conto da Mulher Brasileira

Feminino inscrito na palavra: desejo, amor e frustração em
O Conto da Mulher Brasileira
“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher.” (Simone de Beauvoir)
“Como é possível que eu tenha vivido toda uma existência acreditando que só
no amor eu encontraria a felicidade?” (Edla Van Steen)
“Por que uma antologia só de contos de mulher? À primeira vista, a idéia não
parece justificar, principalmente porque acredito que artistas, no trabalho,
não têm sexo: são artistas. Acontece que a mulher (...) vem cada vez mais
ocupando uma posição de destaque na nossa literatura. Esta antologia visa,
portanto, apontar, marcar a fecundidade de sua produção.”
(Edla Van Steen)
I. O que é Feminismo?
• Questionando a cultura patriarcal que, sob o comando masculino, separa
homens e mulheres, respectivamente, em lugares de dominação e submissão, o
movimento feminista das décadas de 60 e 70 tem como um de seus maiores
propósitos fazer uma denúncia da construção das relações de gênero, isto é,
das relações que destinam homens e mulheres a desempenhar papéis sociais
diferentes.
• Com o tempo, o movimento feminista deixa de ser um movimento marginal,
isolado, para ser legitimado tanto no plano político como no científico.
• O ano de 1975, por exemplo, chamado de Ano Internacional da Mulher, ganha
tanta repercussão que se estende por um década – o que revela a dimensão da
luta contra a dominação masculina.
• Dentre os vários projetos reivindicatórios, alguns são proeminentes nesse
momento:
 Denúncia da manipulação e da violência (tanto física quanto simbólica) às quais
o corpo da mulher é submetido;
 Reivindicação de igualdade entre mulheres e homens no exercício da
sexualidade e de desvinculação entre sexo e maternidade ( a grande bandeira
era “Nosso corpo nos pertence.”);
 Exigência dos direitos ao prazer sexual, ao acesso a métodos
contraceptivos seguros (masculino e femininos), à livre opção pela
maternidade e ao aborto;
 Luta em favor da igualdade de oportunidades de acesso ao
mercado de trabalho, bem como igualdade de funções, direitos e
salários;
 Igualdade de deveres e funções no âmbito doméstico-familiar;
 Conscientização das mulheres quanto `a construção assimétrica
das relações de gêneros na família, na escola, na igreja e nos
meios de comunicação.
 Observação: A organizadora ao selecionar narrativas escritas
somente por mulheres que, em sua maioria, abordam, sob o viés da
temática amorosa, as relações homem-mulher, pode ser vista, sem
dúvida, como figura atuante nesse contexto histórico-social dos
anos 70, que tende a repensar o lugar que ocupa e o papel que
desempenha a mulher.
II. A Obra
• O dito texto feminino, assim como o interesse pela voz das minorias,
vem pontuando os estudos culturais.
• Depois de séculos de opressão pelo sistema de valores dominantes,
há, no mundo contemporâneo, a emergência de vozes dissonantes,
divergentes, trazendo as marcas da diferença.
• Os contos não são exatamente feministas e nem pretendem se
circunscrever à noção de brasilidade.
• A ensaísta Elódia Xavier chama a atenção para isto: o discurso
feminino não se confunde como feminismo, mas traz no seu bojo a
consciência da situação social da mulher ao questionar os papéis
sociais em que ela se apresenta dividida, adotando uma linguagem que
subverte os padrões normais.
 A seguir, anotamos alguns traços comuns que caracterizam o discurso
feminino, segundo as observações de Xavier:
• O elemento estruturador das narrativas é a condição feminina, vivida e
transfigurada esteticamente;
• Há desconstrução dos perfis românticos da mulher;
• Prevalece a narrativa em primeira pessoa, confessional, indicando forte
intimidade entre o narrador e personagem, privilegiando a ótica feminina;
• A procura de um espaço de auto-realização da personagem, que se dilacera
entre o destino de mulher e a vocação do ser humano;
• Ocorre conflito com a sociedade patriarcal, que busca sempre manter a mulher
em seu estado de domesticidade;
• Há ênfase na introspecção, no intimismo, em detrimento dos acontecimentos,
da ação;
• O passado é essencial: há abordagem da infância reprimida e mal amada;
resgate de memória, como caminho para o auto-conhecimento;
• A linguagem é marcada pela ambigüidade, pela polissemia, com tendência para
o poético, resultando daí certa dificuldade da comunicação em razão dos
símbolos que remetem a fantasmas do passado que se misturam a realidades
presentes.
 Com exceção de Helena Silveira (1911–1984), que escreveu seu conto “Aida
Arouche Magnocavallo”, na década de 1940, ambientando-o em 1930, as outras
18 narrativas da antologia foram escritas no final da década de 1970 e exibem
características do discurso pós-moderno, resumidas a seguir:
• Utilização de técnicas cinematográficas, como o zoom, o flash-black, os cortes,
a sucessão de seqüências;
• A fragmentação, a elipse, a extrema concisão e a fragmentação das narrativas;
• A instabilidade do foco narrativo, como alternâncias do ponto de vista de 1ª e 3ª
pessoa:
• A ausência de linearidade, da estrutura da narrativa convencional de começomeio-fim;
• Valorização do monólogo interior e do fluxo da consciência do personagemnarrador;
• A personagem envolta na sociedade industrializada e aprisionada num universo
consumista;
• Pulverização do enredo, convulsão da linguagem, mergulho metalingüístico;
• Intensa prática da intertextualidade; uso de pastiches, paródias, alusões.
• A inserção do fantástico, do mistério, possibilitando mais ambigüidade e
polissemia da narrativa.
• Adoção da violência e da vulgaridade no discurso, com ênfase no erotismo e
nos aspectos gerais da contracultura.
• Nelly Novaes Coelho classifica os contos em dois grupos:
 a literatura catártica e intimista, que analisa psicologicamente uma
situação existente;
 a literatura de interrogação e de busca, em que a situação narrativa
vale mais como uma sondagem do que virá, antecipando o futuro.
 No primeiro caso, exemplificando melhor pelas autoras Dinah Silveira
de Queiroz, Helena Silveira e Maria de Lourdes Teixeira, há uma
linguagem mais realista e comunicativa, sem oferecer muitos
obstáculos à fruição da leitura.
 Na dita literatura de interrogação e de busca, há mais ruptura com a
estrutura tradicional da narrativa, refletindo uma forma de compensar
a estrutura tradicional ainda vigente na sociedade, inadequada às
conquistas de liberdade das minorias, no caso, da mulher.
III. Os Enredos
1. HD 41 ( Anna Maria Martins)
• A narrativa da paulista Anna , contrariando a maior parte dos contos da
antologia, é centrada num protagonista masculino: um executivo bem sucedido
que vive em São Paulo, no inicio da década de 1970.
• O texto se serve de marcações dramáticas de teatro, televisão e cinema, mescla
a linguagem da propaganda, o monólogo interior e o discurso indireto livre.
• O executivo Horácio Dias, ou apenas Agadê, é associado a um trator, que
supera todos os obstáculos.
• Reconhecido profissionalmente, viaja para New York, onde também em seus
casos.
• É solicitado a dar entrevistas na TV, enquanto sua mulher cuida dos filhos e lê
livros acurados (ele recomenda obras de Rubem Fonseca e Dalton Tervisan).
• Recrimina a esposa, inoportuna, que liga sem precisar e lhe faz perguntas tolas.
• Horácio é mulherengo, mas enfastia-se logo de suas conquistas extraconjugais.
• Através de seus pensamentos, lê-se como o homem estereotipa a mulher: “As
mulheres geralmente são sensíveis, ressentem-se com qualquer coisa, apegamse demasiado, e, o pior, tem aguçado senso de propriedade” (p. 13 )
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A figura feminina, nesse canto, ocupa um segundo plano, mas está sempre
presente como contraponto do rolo compressor masculino, cujo dinamismo,
quando ameaçado por um “nervous breakdown”, encontrará repouso nas
férias com a família na Suíça.
Nelly Novaes Coelho afirma que esse executivo vitorioso é incapaz de
atender aos impulsos mais legítimos da união com a mulher e com o mundo,
pois se transforma em verdadeira máquina da sociedade consumista, sem
profunda ligação com a plenitude da vida.
2. O piano (Cristina de Queiroz)
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A paulista Cristina expõe, na primeira pessoa, o relato de uma esposa que
oscila entre a insubordinação e o acatamento de uma vida convencional ao
lado do marido, Fernando, outro protótipo de pessoa eficiente na máquina
social.
Tia Glória, já falecida, maledicente e repressora, sinaliza o lugar de
estabilidade e acomodação da mulher.
Outra tia, Alice, tinha um filho, Carlinhos, que demonstrava muito interesse
pela protagonista.
Carlinhos seria, mais tarde, a possibilidade libertação da narradora, mas ela
deixa que tudo se espatife.
Há um quadro familiar em cuja moldura a protagonista se insere, mas
julgando-se rebelde e intratável.
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A relação com Fernando é caracterizada como uma espécie de fraude.
Seu casamento é uma encenação, ela crê que, no fundo, não é realmente
aquela dócil mulherzinha que toma chá ao lado do marido e recebe flores.
A sua vida é marcada pela dissimulação.
O chá, os cravos vermelhos e, sobretudo, o piano são índices de sua farsa,
da hipócrita aceitação dos valores tradicionais reservados à mulher.
Para Nelly Novaes Coelho, esse é um texto catártico, na linha psicanalítica,
exibindo a deformação de uma personalidade imposta pela sociedade.
A narradora, alienando-se de si mesma, se converte “num simples objeto
de uso alheio” (p.28).
Resta-lhe imitar a amiga Neusa, que toca piano e satisfaz o papel da
esposa bem comportada.
3. Port Moresby (Dinah Silveira de Queiroz)
• Segunda mulher a entrar para a ABL, a paulista Dinah apresenta-nos um conto
irônico sobre Dorothy – o mesmo nome da garota de O mágico de O –
representante da classe média alta de São Paulo, que dirige pelo Jardim Europa
e se torna gêmea de tantas outras mulheres de sua condição e de sua alienação.
• Sua vida como as compras que faz é inútil.
• Ao ler uma manchete no boletim Agrícola (seu marido, Jorge, vendia máquinas
agrícolas), sua vida medíocre sofre uma transformação: indigna-se ao ler que,
em PortMoresby, no Golfo Papua, no Pacífico, uma mulher fora vendida por 100
bois, 200 sacas de café e 50 cabras.
• O pai dessa noiva era um ativista político da emancipação feminina.
• Naquela noite, um compromisso de Jorge deixa Dorothy em companhia da
cunhada Martinha, que tecia tapetes.
• Dorothy, indignada, conta sobre o que leu, mas a cunhada não demonstra tanto
interesse, mas pensa eroticamente nos papuas.
• A protagonista imagina-se em plena campanha em defesa das mulheres do
pacífico, indo a programas de televisão e tendo apoio da primeira dama do
Estado.
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O casal é convidado para um jantar na residência do grânfino Tuca Melo
Ayres, com quem Jorge está fazendo negócios.
Na sobremesa, Dorothy fala de Port Moresby, mas a recepção é fria.
Um cronista social, Theo, parece mais interessado, mas ironiza o caso: “Só
em PortMoresby?” (p.41).
Pressentindo na emergente Dorothy uma presa fácil para suas conquistas,
Theo a leva até o terraço, beijando-a.
Ela achava que o cronista publicaria em sua coluna algo sobre sua causa
em favor às mulheres, mas nada sai na imprensa.
Nelly Novaes atenta para o foco narrativo moderno, em que o narrador, na
terceira pessoa, adere ao protagonista, que pertence a um mundo vazio,
sem essencialidade.
A inconsciência preside a relação esposa e marido, e, no fundo, as
mulheres ociosas da elite paulistana são também vendáveis, como as
papuas de Port Moresby.
4. Os mortos não têm desejos – Roteiro de uma vida inútil ( Edla Van Steen)
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Edlna utiliza uma técnica que lembra MPBC, de Machado de Assis, aliás, citado.
A perspectiva da narrativa é feita por uma morta.
Na estrutura do texto, há a exploração de recursoS cinematográficos, seqüências, zooms,
cortes, flashbacks, com alteração do foco narrativo.
A história se passa no velório de Heloisa, que morrera num acidente automobilístico.
Ela tinha feição nórdica, loura e de olhos azuis: desde menina tivera os cuidados da
governanta alemã Matilde, que lhe contava histórias de fadas.
Casara-se com Marcos, com quem tem um filho.
Mas Marcos tem um caso com sua amiga Alice, recriminando-a.
Alice sugere que Mariana era apaixonada pela morta.
Heloísa tinha uma relação ambígua com o amigo Fábio.
Marcos desprezava as pinturas da esposa.
Um dia, desabafara, criticando o seu ar de superioridade e a “educação fajuta de colégio
de freiras”.
Pontua a narrativa as fantasias de Heloisa, influenciada desde menina pela lenda de
Siegfried, príncipe alemão.
Além, da intertextualidade com contos de fadas, há também as referências à pintura de
Gauguin e às Bachianas, de Villa Lobos.
Nos pensamentos da narradora, há a autocrítica de se acreditar na ficção, a dificuldade
de amar e a expectativa de a vida não corresponder à fantasia.
Uma imagem forte caracteriza a frustração de Heloisa: “Ah, se minha alma pudesse secar
lustrosas de detergente no escorredor de pratos!” (p.54).
5. Ainda Arouche Magnocavallo (Helena Silveira)
• A paulista Helena traz um texto escrito ambientado em 1930, em São Paulo.
• O título, nome da personagem central, sintetiza o tema: tudo gira em torno do
nome do protagonista, que é filha de um italiano, numa época em que havia
bastante preconceito por parte da elite paulistana pelos “carcamanos”, os
emergentes imigrantes.
• Aida estudava num colégio tradicional, de freiras, em que as salas eram
divididas por uma escola cromática (os nomes das turmas eram cores, em
francês); suas colegas tinham sobrenomes da aristocracia paulistana e
discriminavam Aida.
• Esta reclamava ao pai Andrea, um rústico calabrês, para que ele abrasileirasse
seu sobrenome Magnocavallo.
• Isac Wewbeiczyk era o vizinho violinista de sobrenome polonês, que enchia as
fantasias de Aida.
• Ela imaginava casar-se e mudar seu sobrenome.
• Na formatura, a filha evita encarar o pai, pois não consegue esquecer o
estigma do sobrenome.
• Detestava filmes de cowboy, pois os cavalos lhe lembravam sua “ferida” social.
• O tempo passa, Ivan deixa o violino e acaba sumindo da vida de
Aida, que se muda para outro bairro (vivia no Bom Retiro).
• O pai adoece e vai tratar-se na Itália.
• Aida imagina o navio afundando, pois ela mata seu pai de todas as
maneiras possíveis.
• O pai retorna mais magro, e acaba morrendo.
• O remorso corrói a protagonista, que nunca se casara (recusar
casamentos com sobrenomes que não eram nobres).
• A reconciliação com o pai falecido se faz de forma irônica: a casa,
transformada em pensão, ostentava em sua tabuleta: “Pensão
Magnocavallo – estritamente familiar”.
• Nelly Novaes comenta que o problema social, tema dessa narrativa,
sofreria um declínio no após-guerra.
• A ensaísta observa que a problemática de natureza social e
econômica, ganha também uma dimensão psicológica, pois a
protagonista padece solidão, sofre a irrealização no amor e tem
suas esperanças frustradas.
6. Lucas, Naim (Hilda Hilst)
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A paulista Hilda Hilst é uma das mais complexas escritoras contemporâneas.
Sua obra é tida como hermética e indomável.
A intertextualidade e a metalinguagem são marcas desse conto cujo título traz
ressonâncias bíblicas (nome do evangelista e da cidade onde Cristo ressuscitou um
jovem).
O narrador, Lucas, confunde-se com a própria linguagem: “eu corpo palavra, sangue
emoção sufixo” (p.69).
O texto é uma prosa poética abordando tema da velhice e do homossexualismo.
O leitor chega a ficar perdido nesse labirinto de palavras, pois o narrador, ao escrever,
vai “emparedar corolários” em seu monólogo, dirigindo-se a Naim, receptor mudo diante
do riso cascatado e do pensamento baço do amante.
O lirismo é evidente e estranho a cada trecho: “Te amo como as begônias tarântulas
amam seus congêneres” (p.70).
Há uma frase recorrente: “O individuo tem uma extensão considerável no tempo e
negligenciável no espaço” (p.71).
A ensaísta Lúcia Castello Branco, que analisa o texto de Hilst como um “processo da
dessimbolização do discurso”, destaca que ocorre aí “um raciocínio cartesiano, com
pretensões a uma cientificidade” (Branco, 1989:119).
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A impressão que se tem é que a escrita de Lucas/Hilda é amorfa, gaguejante, ofegante,
caótica, desmentindo a suposta virilidade do narrador, que cita o clássico Virgilio em
suas considerações sobre abelhas e a velhice, tempo de reflexão e de morte.
O nome de Naim é seguido pelo número vinte e cinco, possivelmente a sua idade.
O texto de Lucas, espiralado, glacial, “hiperdialético” (p.72) vai somando poeticamente
vogais e consoantes, criando imagens como um lago onde bóiam estufadas palavras de
amor.
Há uma espécie de gravidez redonda a percorrer essa escrita erotizada, contendo
alguns neologismos: “sentir muito sentiente” (p.73).
Como entender um texto em que o narrador parece “usar geléia de morango nas
palavras”? (p.73).
De qualquer maneira, o que se fixa é uma carga de angústia, de melancolia de uma voz
que vê “a velhice como espetáculo imundo e risível” (p.74).
A luminosidade desprendida do corpo tosco e tolo do quase adolescente Naim,
“estofamento álmico” de Lucas, não é capaz de impedir o suicídio do narrador, que se
atira pela janela.
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Se, para Nelly Novaes esse conto tange o caráter esotérico, o oculto e
inexplicável, para Lúcia Castello Branco essa é uma “história de um amor
homossexual, relato sobre a gênese da palavra e da própria narrativa”
(Branco, 1989:117).
A ensaísta aponta a questão da relação espetacular entre as personagens
dessa narrativa que tem o mito bíblico como suporte.
Se o evangelista é o mensageiro de um discurso alheio, que o transcende,
Lucas narra também uma experiência transcendente.
Analisando o título do conto, Lúcia Castello Branco chama a atenção para a
vírgula, que separa e aproxima os nomes numa relação de equivalência. “a
estrutura espetacular da narrativa á ainda reiterada pela atenção homossexual
que se estabelece entre as personagens. Naim é criação de Lucas, da própria
criação do discurso” (Branco, 1989:120).
Se Naim é o nome da cidade onde Cristo ressuscitou o filho de uma viúva, o
amor homossexual entre os personagens, segundo Lúcia Castello Branco,
pode ser bem o simulacro entre a relação mãe/filho.
A solução para isso é a morte, o nada absoluto, única forma de conter o vórtice
da escritura.
7. A Sr. Buchern em Lebenswald (Judith Grossmann)
• Carioca de origem judia, Judith traz outro conto enigmático, hermético, sobre certa
senhora Buchern (nome ligado a livros), na Alemanha, cercada de seus poucos objetos e
livros, e que era um verdadeiro ponto de interrogação para os seus vizinhos.
• Seu humor como sua aparência eram inconstantes, recebia visitas diárias de um
rapazinho magro, que era, na verdade, um natimorto.
• A única função da protagonista seria, portanto, cuidar daquele morto-vivo, que um dia a
repudia.
• É como se fosse uma ressurreição.
• Quando ela se prepara para deixar a cidade, encontra outro jovem, filho de judeus, que
seria o único moço vivo naquela cidade, pois os demais “estavam mortos, mortinhos,
inexpugnavelmente, submersos em suas mortezinhas diárias” (p.79).
• Ela tivera de morrer por dentro vária vezes para cumprir a nova missão.
• Depois, ela parte, nada há de fazer depois de ter cuidado das duas pessoas mais
importantes da cidade.
• Fantástico e alegórico, esse conto guarda coisas ocultas, provavelmente associadas ao
espectro do holocausto na Alemanha.
• A senhora que cuida de dois jovens que representam a morte e a vida pode ser vista
como metáfora da imolação feminina, a expiação da mulher na sociedade.
• Grasmann, intencionalmente, joga com os termos imolar e emalar, ludicamente situando
a mulher no espaço do sacrifício e do exílio.
8. Curriculum vitae (Julieta de Godoy Ladeira)
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A paulista Julieta recorre a um monólogo irônico em que se questiona a
formalidade de um currículo de vida.
Atrás do impessoalismo burocrático do curriculum vitae, há flashes da infância
da protagonista em lugares de São Paulo (Vila Mariana, Ana Rosa).
Em sua classe, as meninas eram como “larvas silenciosas e obedientes”,
boa metáfora da mulher na sociedade patriarcal.
O texto desenvolve-se entre a frieza dos dados biográficos e o fluxo da
memória, que de forma rápida põe diante do leitor a trajetória do pai
comerciante, suas várias atividades, seus processos, sua falência.
É como se um vitral fosse montado.
Como os cacos desses vidros não poderiam constar do curriculum vitae, a
protagonista enumera datas entre os anos 50 e 70 em que trabalhou em vários
empregos, até poder comprar seu apartamento, seu carro.
Revela suas relações tensas com a mãe egoísta, a fuga às propostas de
casamento, os sentimentos que vão apodrecendo.
Para conquistar novos empregos, deve preencher fichas, mas eles pedem
pessoas com menos prática.
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A sabedoria de vida ensina a perceber de longe a falsidade das coisas, as
exigências vãs.
Num mundo que “a ordem é estabelecida por clipes” (p.90), não há lugar para
autenticidade do humano, pois há “águas contaminadas, linfas silenciosas e
obedientes”, e aí vai transitando a mulher entre “homens estridentes”,
preenchendo papéis.
Nelly Novaes destaca a frustração feminina, o bloqueio na comunicação
essencial com os pais e a anulação das possibilidades de realização vital.
O uso do curriculum sinaliza uma sociedade que dá mais valor às aparências.
As pessoas são transformadas em rótulos, a potencialidade é pulverizada.
9. As formigas (Lygia Fagundes Telles)
• Considerado um exemplo do gênero realismo fantástico, esse texto é narrado
na primeira pessoa, por uma estudante de Direito.
• Ela e sua prima, estudante de Medicina (nenhum nome de personagem é
citado), com poucos recursos financeiros, chegam a um velho sobrado, onde
alugam um quarto.
• A dona da pensão era uma velha de unhas aduncas, que fumava charuto e
usava uma “peruca mais negra do que a asa da graúna” (p.91).
• Essa frase que parodia Iracema, de José de Alencar, traz um pouco de humor
a um relato que se inicia de forma sombria e sinistra, pois as janelas ovaladas
do casarão pareciam dois olhos tristes.
• O sótão, onde as primas vão ocupar, havia sido antes alugado por um outro
estudante de medicina, que ali deixara uma caixa de ossos.
• A prima verifica tratar-se de ossos de um anão (aliás, figura recorrente nos
textos de Lygia).
• A narradora põe na parede uma gravura de Grasmann e tira da mala seu urso
de pelúcia.
• A prima deseja montar o esqueleto do anão.
• Na primeira noite, depois d sentir um cheiro estranho, a narradora sonha com
um anão louro fumando charuto.
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Acorda no meio da noite e vê a companheira entretida com formigas, que se
dirigiam para a caixinha.
Uma das formigas parece colocar a mão sobre a cabeça, como uma pessoa
desesperada.
A narradora volta a dormir, sonha com exames, e, no dia seguinte, não
encontra vestígio algum de formiga.
Na segunda noite, sabe pela prima que ninguém limpara o chão.
O cheiro estranho retorna.
Um novo sonho: agora, com dois namorados e o encontro com ambos, na
mesma hora.
O segundo era um anão.
É acordada pela prima, que indica o retorno das formigas, que estão
organizando os ossos no anão.
Na terceira noite, a prima diz que não dormirá, para aguardar as formigas.
A narradora, que viera de uma festa de casamento, está de ressaca e dorme.
Novamente é despertada pela prima, que depois de ter caído no sono,
acordara com as formigas.
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O esqueleto do anão estava quase formado.
Com medo, deixam o quarto, infestado de novo com aquele cheiro estranho.
Na rua, ouvem um som, que parece miado de um gato ou um grito.
Encaram a casa: “Só janela vazada nos via, o outro olho era penumbra” (p.98).
Na penumbra ficamos nós, sem saber direito sobre aquele esqueleto, aquele
cheiro, aquelas formigas... O mistério, o sobrenatural, o fantástico, como
classificar o texto?
Para José Paulo Paes, “A pavorosa precisão com as formigas vão remontando
osso por osso o esqueleto de um anão instaura o fantástico, sob espécies do
liliputiano, no mundo as pessoas grandes”.
O conto propõe desafios e algumas sugestivas pistas.
Duas universitárias pobres, buscando a auto afirmação em suas vidas,
morando sós, independentes da família.
A velha pensionista, caracterizada negativamente, lembra a figura da bruxa, e
parece personificar o repressivo mundo adulto.
O objeto deixado por outro estudante de medicina sinaliza a
presença/ausência do macho, que retornará nos sonhos da protagonista, até
de forma dupla (os dois namorados).
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O charuto é um forte símbolo fálico.
Quanto às formigas, podem ser ligados ao inconsciente.
A caixa de ossos, guardada sob a cama, seria um arquétipo minúsculo do
elemento masculino.
Coisa pequena, que mescla o menino e o adulto.
Segundo a opinião de Leonardo monteiro, nos personagens de Lygia, “os
acontecimentos que marcaram a infância prolongam seus efeitos na vida
adulta e afloram a cada momento”
Há a importância de objetos, que exercem uma função constitutiva e alegórica
na integração com as personagens.
Para Nelly Novaes , esse conto, além de instaurar o absurdo, deixa latente um
traço marcante da autora: a preocupação criadora nuclear na relação entre
homem e a mulher.
Se escrever exige paciência, não se pode também descartar o símbolo das
diligentes e pacientes formigas com a tarefa do escritor ao montar, em sua
ficção, o esqueleto de seus pequenos monstros.
10. Relatório final (Márcia Denser)
• A escritora paulista Márcia propõe um relatório na primeira pessoa, datado em
30-12-1977, anotando o verdadeiro “carrossel” de sensações da protagonista,
uma jornalista “caçadora” de homens, que faz na literatura um quebra-cabeça,
um mergulho no abismo.
• A linguagem é erotizada e agressiva; corpo e literatura se fundem.
• E nesse “fluxo maldito chamado literatura” (p.100) ela remexe as entranhas e
narra uma aventura etílica e sexual, na antevéspera da passagem do ano.
• Há uma festa em sua agência, ela bebe demais e depois vai a um bar, onde
acaba por conhecer um sujeito (bancário? Representante de bebida?).
• Vão para um hotel, onde fazem um sexo insatisfatório “A coisa foi socando
como pilão” (p.105).
• Dirigem-se para outro bar.
• A protagonista sugere arrumarem uma companhia feminina para apimentar a
relação.
• Aquela idéia excita o rapaz, que a convida para uma nova cópula, na praça de
uma igreja.
• O homem não dá conta do recado, diz que estava machucado.
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Ele mora em Osasco, ela no Morumbi.
Nelly Novaes considera “a consciência da tarefa nomeadora da literatura (...); a
estrutura em abismo é toda ela centrada ou enovelada em torno da intenção
da mulher que fala em narrar o acontecido, em escrever a estória da estória”
Márcia dramatiza a degradação do erotismo: a mulher torna-se figura abjeta,
repulsiva em função do sexo transformado em arma gratuita e violenta.
A jornalista torna-se, assim, uma espécie de anti-heroína, uma caricatura
feminina, caçadora que vira caça e cai na própria armadilha e se frustra.
É interessante transcrever palavras de Denser na abertura de seu livro com o
sintomático título O animal dos motéis:
“As mulheres da minha geração perambulam pelo castelo-em-ruínas do
casamento e se possuem a chave da liberdade conferida pela pílula, nada
podem fazer com ela. Deram-nos a chave, mas esqueceram de construir a
porta”
11. Luar no beco (Maria de Lourdes Teixeira)
• O conto apresenta uma estrutura mais convencional e, até certo ponto, linear, não fosse
a divisão (a nosso ver, mal realizada) da narrativa em duas partes.
• Traz duas epígrafes poéticas de Boris Pasternak e Antonio de Navarro, que preparam o
leitor para a imersão numa atmosfera de magia e poesia propiciada pelo luar.
• O espaço da primeira parte, marcante na poesia de Bandeira, é um beco.
• Lugar escuro, cheio de ratos, por onde passam os “náufragos da cidade”.
• Ali mora a solteirona Teresa, de meia idade, e sua mãe caduca.
• Sua vida é árdua, trabalha para sustentar a mãe e a si mesma, recebendo pensão do
pai, ferroviário que morrera num desastre.
• Tem a feminilidade recalcada.
• Os barulhos da cidade são associados a uma fera no cio.
• Em suas fantasias, Teresa personifica as casas do beco.
• Numa noite clara, de luar, vê passar um homem de cartola e casaca, que a cumprimenta
educadamente, “com distinto ademã”.
• Aquele gesto e aquele vulto eram incompatíveis com a realidade do beco e instaura em
Teresa o toque da poesia e da paixão
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A partir daquele dia, sua vida se modifica, pois, em seus trabalhos domésticos, ela deixa
entrar “a memória e a fantasia, borboletas gêmeas e incansáveis” (p.112).
O luar transfigura a decrepitude do beco.
E na noite seguinte passa, de novo, o homem da cartola e seus gestos refinados.
Teresa alimenta esperanças, embora tema, “o focinho maligno de uma preocupação”
(p.116).
E se o homem fosse casado? E se ele a visse de perto?
Ela passa a se cuidar, despertando resmungos da mãe, que se vê preterida.
A fêmea que mora em Teresa começa a acordar para os anseios do corpo.
Infelizmente, o conto não termina aí: todo o mistério vai ser quebrado, pois, na segunda
parte, a autora introduz outro espaço e outro personagem, o Virgolino, quase sessentão,
que vive com D. Antônia e vai ajudar o camelô Chico Cegonha, no centro de São Paulo.
Passa usar cartola e casaca para fazer propagandas.
Mente para a amante dizendo fazer serviços noturnos e beberica pelos bares, exceto
aos sábados e domingos.
Ao voltar para casa, atalha o caminho, passando pelo beco, iniciando o discreto namoro
com a desconhecida da janela.
Mas teme que aquilo poderia prejudicar sua relação com D. Antônia e deixa de passar
por lá.
O beco continua a ser “valhacouto dos minúsculos amigos da noite e último refúgio da
desistência dos vencidos” (p.125).
12. Dia 24, à noite (Myriam Campelho)
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A carioca Myrian aborda a temática da separação.
• Depois de cinco anos de casada e mais dois anos de separação, a protagonista, na
primeira pessoa, num monólogo interior, mescla lirismo e amargura, ao rememorar seu
tempo de casada, “vida dura cheia de pontas como pedra afiada, mas com interior de
fruta mole e espanto” (p. 127).
• A relação entre ela e o marido torna-se uma demolição entre ambos.
• Perpassam pelo texto referências ao cotidiano (a novela, a sopa).
• O ex-marido casa-se de novo.
• Ele, que era revolucionário nos anos 60, torna-se um burguês rico, às voltas com
mulheres, quadros, uísques.
• Alguém tragado pela sociedade de consumo, mas que é evocado pela narradora como se
fosse o apaixonado e legendário celta Tristão, ele ainda desperta desejo de protagonista,
“sobre o vinho amargo desta noite e a carne difícil das aves tenras, eu te desejo, de
longe, feliz natal” (p. 130)
• O que se destaca nesse texto é a linguagem, a um tempo lírica e agressiva, contendo
inclusive termos chulos (“Grande bosta”, p. 129).
• A personagem se insere num mundo industrializado, consumista, que contrasta com o
imemorial idioma do sentimento.
• A relação homem x mulher, núcleo da escrita feminina, pode ser exemplificada no trecho:
“Por isso cá estamos nós soltos e distantes. Como dois inimigos que mudamente se
respeitam. Eu com o meu amor-próprio cerzido aos poucos, enquanto seu orgulho reluz e
solta chispas como um cavalo bem tratado” (p. 128).
13. A sagrada família (Nélida Piñon)
• A carioca e acadêmica Nélida adota o discurso bíblico como referência intertextual e, na
terceira pessoa, faz um relato critico e contundente sobre as relações familiares e
econômicas.
• A mulher é vista como novilha no prado, fora expulsa do colégio.
• Ela tem um problema hereditário de paralisação dos membros inferiores.
• Leciona música.
• Seus pais eram separados e ela passa a compreender a razão de seu pai ter
abandonado a mãe: a união só conduzia à amargura, à consolidação de estimas
equivocadas.
• Casa-se sem amor com um primo, visando interesses econômicos.
• A breve relação sexual visa o nascimento do herdeiro, outro sócio naquele negócio.
• O primo e esposo vive com raiva e danifica o patrimônio.
• O filho, fingindo-se de pires, deita sobre a mesa.
• O absurdo e o grotesco assinalam esse estranho texto em que um ato de amor é
descrito como “juntas familiares rangendo na imitação dos ancestrais” (p. 132).
• Como anota Nelly Novaes , nesse texto “sobre seres e bens, há a febre da posse, o
individualismo feroz, a sociedade patriarcal em decadência .”
14. Em uso (Rachel Jardim)
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A mineira Rachel, com certo humor, põe em cena uma mulher de cinqüenta anos que oferecerá uma
festa a convidados especiais.
Desde seu inicio, o conto mantém um diálogo intertextual com a obra Mrs. Dalloway, de Virginia
Woolf.
A protagonista não sabia fazer café e detestava garrafa térmica.
Uma vez vira em nova York uma garrafa bonita e pensava em comprar uma desse tipo.
Usa roupas leves e soltas. Não se pintava.
Amava um homem, cearense, que não a desejava e punha em uso a sua fantasia.
É influenciada por romances ingleses.
Houve um tempo em que, para vingar-se de uma relação amorosa frustrada, freqüentava motéis da
Barra (Rio).
Vê-se como uma bacante, uma deidade grega ou uma figura da obra Garcia Lorca.
Vai à Ipanema, em busca da garrafa térmica numa loja chamada “Em uso”.
Mas a loja mudara-se. Vê o seu amado (Afonso Cavaleiro) ao lado de uma mulher convencional,
baixinha, de óculos, como quem “freqüentava missa de Domingo em Barbacena” (p. 143).
Compra uma garrafa de plástico e continua tentando salvar sua vida através da fantasia, mesmo
sabendo que “a vida não está aí para perdoar pessoa alguma”.
A narrativa, que explora o discurso indireto livre, termina com a passagem da terceira pessoa para a
primeira pessoa.
A protagonista se imagina saltando do alto de um prédio, “sorvendo a manhã em grandes haustos” (p.
143).
Nelly Novaes registra que esse conto é realista e idealista ao mesmo tempo, exibindo um “difícil
encontro da mulher consigo mesma, em busca de sua verdadeira imagem. (...) O suicídio é
identificado a um gesto altamente belo e positivo, como que inaugural” (Coelho, 2007:182).
15. Cordélia, a caçadora (Sônia Coutinho)
• A baiana Sônia já traz a ironia no título de seu conto: a protagonista, que tem nome de
cordeiro, vai tornar-se uma caçadora.
• Há alternância do foco narrativo de segunda e primeira pessoa, além de colocar
expressões com letras maiúsculas, enfatizando a ironia, como analisa Novaes Coelho,
“reforçam a qualidade de fórmulas esvaziadas de conteúdo”.
• Cordélia, de meia-idade, é daquelas mulheres com quem os homens pensam “trepar”
uma vez e desaparecer...
• Ela era “viciada em ternura” e se apaixonava na primeira relação.
• Tornara-se uma vitima dos homens, até encontrar Papá, um solteirão, ma que tinha
muita vontade de se casar.
• Com ele, consegue seu maior orgasmo.
• Contara-lhe sua vida sofrida e comovera o amante.
• A trajetória feliz de Cordélia é sempre interceptada pelo olhar irônico da voz narrativa,
que expressa coisas assim: “Não é difícil ser uma mulher, ora, basta tomar banho todo
dia e se perfumar e deixar o barco correr” (p. 149).
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Papá confessa que era desquitado.
Depois, passa a lhe cobrar benefícios.
Depois revela-se sádico, usando chicote.
Cordélia, “Agradecida e Humilde”, suporta as perversões do amante por um tempo,
depois se cansa.
Conhece o fracasso do “Mito Dourado do Casamento”.
A história passa ter o foco narrativo na primeira pessoa do plural “... decidimos ficar
solteiras de novo porque descobrimos que não está em nosso temperamento trepar
mais de 4 meses com apenas um homem” (p. 153).
Cordélia torna-se, então, uma espécie de loba, predadora de homens, inclusive surfistas
jovens.
A máxima que encerra o conto é sintomática: “Pois a vida é, decerto, extremamente
engraçada, mas a gente só descobre isso quando perde completamente a
esperança.”
A ensaísta Lúcia Helena chama a atenção para dois aspectos: “a realidade áspera em
choque com o sonho e a mitologização da sociedade de consumo”.
Sônia demole o perfil romântico da mulher.
Os parênteses no final do conto sugerem que a mulher também vive entre parênteses,
agora frustrada com a liberdade que conquistou.
16. A porca (Tania Jamardo Faillace)
• A gaúcha Tânia distingue-se por três aspectos: inicia seu conto com o tradicional “era
uma vez”, elege um menino como protagonista e ambienta sua história na zona rural.
• O medo caracteriza o personagem.
• Enquanto os irmãos brincam com a porca, ele fica arredio.
• Sua mãe se associa à figura da porca.
• O pai dera um chute no animal, fazendo com ele perdesse os 14 filhotes.
• A mãe agride o pai com vassoura.
• Ele grunhe como porco.
• O menino imagina cair dentro da pipa e ali encontrar os porquinhos encarquilhados.
• Derruba a pipa e leva puxões do irmão mais velho, que zomba de seu pequeno pênis.
• O menino fantasia fugir para o mar.
• Gosta de correr e de gritar.
• Sente seu sexo erguer-se. A sua família é vista como suínos.
• A vizinha mata a porca, que esguicha água e sangue.
• A família toda se suja de sangue. O pai bate na mãe.
• O menino tem dor de barriga e promete nunca mais beijar sua mãe.
• A narrativa grotesca contrapõe a interioridade sofrida de um menino inserido em um
quadro familiar repulsivo.
17.
K de Know-how (Vilma Arêas)
• O melhor desse conto da carioca Vilma está no título: lúdico nonsense.
• Não faz sentido, mas é engraçado.
• Quanto ao conto (?), é mais profusão de diálogos do que propriamente
uma narrativa.
• Tudo é indefinido e fragmentário: o que entrava pelos banheiros; quem
está hospitalizado; o quê segue o ardor; quem está nos álbuns.
• Há mulheres italianas e lindas, casamento, mãos bolinando seios
sobre a blusa, flashbacks, frases fragmentadas.
• É muita areia para um caminho assim, mas é um índice da indefinição
do discurso feminino.
18. A coisa melhor do mundo (Vivina de Assis Viana)
• A mineira Vivina estrutura seu conto, em primeira pessoa, em três fases da vida da
protagonista nos anos 1950, 1960 e 1970.
• A melhor coisa do mundo era ter dezoito anos: ela fazia planos, ouvia João Gilberto e
tinha um namorado.
• Aos 30 anos, casada com namorado, ouvia Caetano e considerava que a melhor coisa
do mundo é descansar, para poder mergulhar no mundo.
• Aos 35 anos, não tem mais planos e nem acha nada melhor no mundo.
• O marido faz sucesso, as mulheres desistiram de ser independentes...
• Lá fora, a vida grita, as buzinas chamam, e ela sabe que não há coisas boas no mundo.
• Para Nelly Novaes, esse conto sobre o desencanto feminino explora a linguagem
telegráfica e impessoal, à maneira de relatórios.
• A protagonista vive da euforia à indiferença, do sonho à desesperança.
• O sucesso do marido, de sobrenome famoso, eclipsa a esposa, que parou de sonhar e
bóia na imobilidade das coisas realizadas.
19. A curiosa metamorfose pop do senhor Plácido ( Zulmira Ribeiro Tavares)
• A paulista Zulmira tem uma escrita virilmente bem humorada (poucas são as mulheres
que fazem humor na literatura).
• Seu conto valoriza o humor irônico e é literalmente escatológico.
• De um exame de fezes a escritora fez uma obra prima.
• Em literatura, é possível fazer arte da merda.
• O senhor Plácido, gerente de uma loja de eletrodoméstico, tem três coisas a fazer: ir à
Bienal, ir ao enterro do amigo Tancredo Carvalho e comprar um penico para exame.
• É aconselhado por um amigo a apreciar a obra de arte com olhos de criança, já que não
entendia nada de arte contemporânea.
• Esse amigo lhe explica a diferença entre o museu e a Bienal: nesta, a arte tangia o
precário, o provisório, o perecível.
• Não há limites entre a arte e a realidade, entre a arte e o não-artístico.
• O protagonista compra um penico rosa, infantil, e vai a seus compromissos.
• Envolve o penico, agora chamado artisticamente de “significado” em um catálogo, para
disfarçar-lhe o formato.
• O nonsense está armado.
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E o humor acentua-se com a reclamação da esposa, perguntando-lhe onde ele estava
com a cabeça: “Se o problema é o traseiro, que interessa a você a cabeça?”
É de muita comicidade a cena em que o protagonista precisa se concentrar e relaxar-se,
ao mesmo tempo.
Vem-lhe à mente um livro de auto-ajuda, A timidez vencida em dez lições.
O texto torna-se um fluxo da consciência, com o protagonista e o narrador associando
palavras e idéias, arte e ciência, as cores roxo e rosa, até a obtenção do produto para o
exame.
O desenlace apresenta exploração visual, as palavras verticais na construção de um
“objeto pop”, ou seja, o cocô do Sr. Plácido.
Nelly Novaes salienta o caráter grotesco, lúdico e a estruturação da narrativa pelo
processo das associações e/ou interpenetração de áreas.
A ironia em relação à arte conhecida como pop, e a desvairada da sátira de Zulmira,
autora especialista em desmascarar as farsas da sociedade.
Aliás, Nelly Novaes alerta que a verdadeira libertação da mulher não pode ser fenômeno
isolado e pessoal, pois está ligada às transformações de pelo menos 4 ordens básicas
onde ela está inserida: no sistema familiar e social; na produção de trabalho; na
sexualidade e na procriação.